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EM REVISTAREPORTAGENS — A PRODUÇÃO LITERÁRIA PARA ALÉM DOS EIXOS CONVENCIONAIS...
05/05/2014

A produção literária para além dos eixos convencionais

A literatura brasileira influenciou e influencia escritores ao redor do mundo. Do Romantismo de José de Alencar ao Regionalismo universal de Guimarães Rosa, a riqueza literária brasileira está preservada em bibliotecas, nas escolas e nos debates acadêmicos. Porém hoje se percebem manifestações literárias além desses espaços e instituições, articulando escritores, produtores culturais, entre outros agentes. Elas ocorrem nas ruas, nos bares, em espaços públicos espalhados pelo país, além dos ambientes em que as práticas de leitura e escrita costumam ser divulgadas.

A atuação do poeta Carlos Moreira é um exemplo concreto de articulação independente no intuito de promover a literatura regional. Nascido em João Pessoa (PB) e atual morador de Porto Velho (RO), Carlos organiza o Festival de Literatura da Amazônia (Flama), uma iniciativa do próprio poeta e de Marcos Aurélio Marques, seu amigo e parceiro. A proposta do festival é divulgar e fomentar a literatura da região. Com o slogan “A Amazônia está em toda parte”, a missão do festival, segundo Carlos, é criar pontes entre escritores de todo o país. Além disso, o Flama é uma tentativa de transformar a realidade de crianças e jovens locais, afirma Carlos. “Além de poeta, sou professor de Literatura e creio que as práticas letradas atuam positivamente na vida de cada pessoa.”

O poeta conta que seu interesse por literatura começou em casa, diante de estantes que abrigavam livros grossos. “Ninguém na família lia esses livros. Fui eu que, por curiosidade, comecei a ler. A minha fome de leitura se espalhou como um vírus: hoje todo mundo lê lá em casa. Meu pai quase não vê televisão, pois se dedica à leitura o tempo todo. É lindo de ver”, comenta Moreira.

O escritor recorda uma experiência pela qual passou aos 12 anos de idade e que marcou sua vida. “Estava sempre com algum livro, em algum canto da escola. Um dia, a merendeira se aproximou de mim, com um embrulho, e disse: ‘Estava guardando para o meu filho, mas ele não gosta de ler. Agora é seu’. Era um livro grosso, com capa de madrepérola, uma antologia dos poetas românticos. Tremo só de lembrar. Esse livro ainda está na minha biblioteca, num lugar de honra. Não empresto nem a mim”, brinca o poeta.

Sobre a produção de literatura na região, Carlos afirma que ela é vasta, porém a publicação é precária e rara. “As redes sociais têm ajudado muitos escritores na divulgação de suas obras, porém isso não acontece com todos. Pessoalmente, não posso reclamar; publiquei vários livros em Manaus e atualmente publico pela Editora Patuá, de São Paulo”, declara.

Assista a Carlos Moreira recitando seus poemas na Flama 2013: “É de poesia que o mundo precisa”. 

Já no Rio de Janeiro, o jornalista Luiz Augusto Erthal organiza o Festival Fluminense de Poesia (Flup). A ideia do Festival é fortalecer a identidade do cidadão fluminense, que vem sendo deteriorada ao longos dos anos. “O estado do Rio de Janeiro foi responsável por uma parcela muito importante da formação literária brasileira. Porém, a fusão com o estado da Guanabara, em 1975, gerou uma crise de identidade em nossa região. Isso é nítido quando percebemos a força da cultura carioca, da cidade do Rio de Janeiro, em detrimento da cultura fluminense, do cidadão do interior do Rio. O Flup nasce com a preocupação de reafirmar a identidade cultural do cidadão fluminense do interior, que está ameaçada. Para isso, o movimento articula escritores da região, por meio de discussões, palestras e leituras literárias”, afirma Erthal. 

Em outro ponto do país, Adenildo Lima, escritor da zona sul do município de São Paulo, conta que a aproximação com a literatura se deu por meio da tradição oral. Aos 5 anos de idade, o menino Adenildo, natural de Alagoas, ouviu pela primeira vez trabalhadores locais recitarem poemas populares. Dois anos depois, o poeta teve sua primeira experiência literária: numa aula de Língua Portuguesa, sua professora pediu uma redação, mas recebeu um poema escrito por Adenildo. Em resposta, a professora disse: “Isso não é uma redação, mas é um belo poema”.

Em 2009, Adenildo lançou O copo e a água, seu primeiro livro, com temática infantil, que já teve mais de 20 mil exemplares vendidos. A obra, que foi distribuída em escolas públicas e privadas do estado de São Paulo, tem como principal meio de divulgação os saraus na região sul da capital paulistana. Foi o escritor quem idealizou o Sarau Poético, com o objetivo de realizar encontros de escritores, além de divulgar seus trabalhos. “O sarau é uma porta de entrada para o escritor publicar seu livro, pois é por meio desse espaço que ele articula desde a produção até a venda de sua obra, de maneira independente”, afirma Adenildo.

O Sarau Poético integra o roteiro do Ônibus-Biblioteca, um projeto da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo que busca tornar a literatura acessível à população em locais onde não há bibliotecas físicas. Os encontros poéticos acontecem em diversos espaços da cidade, como nas Fábricas de Cultura, com a participação de crianças e adolescentes recitando trechos de livros e interagindo com Adenildo, Maria Vilani e Diego Muñoz, organizadores do Sarau. 


Ao se referir à produção independente de literatura que ocorre nas periferias de São Paulo, Adenildo não utiliza o termo literatura periférica. “A arte é universal e não possui rótulos. O mesmo indivíduo que produz literatura no bairro do Grajaú, em São Paulo, produzirá também literatura se estiver na Holanda, por exemplo. Eu nasci no estado de Alagoas, mas hoje faço literatura na cidade de São Paulo. Como chamar a literatura que estou produzindo?”, questiona Adenildo.

Em 2012, Adenildo criou a Editora da Gente, para facilitar a divulgação de sua obra. “A intenção é publicar meus livros, pois, mesmo com mais de 20 mil exemplares vendidos, as editoras sempre estão com as portas fechadas às minhas obras”, esclarece Adenildo, que já publicou dois títulos de autoria própria e um de Maria Vilani.

Assista à declamação do poema "Fátria, África Brasil", de Adenildo Lima, no sarau da Casa das Rosas, em São Paulo. O poema integra o livro Lobisomem pós-moderno, publicado pela Editora da Gente:


No blog do poeta Carlos Moreira, é possível ler e ouvir os poemas de seu áudio-livro Em silêncio não se fala e fazer download da obra completa. Clique aqui.

Leia também a entrevista do poeta Sérgio Vaz, idealizador da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa), à Olimpíada de Língua Portuguesa. Acesse.

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