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EM REVISTACOLUNAS — ESCREVER PARA LEMBRAR...
17/09/2015

Escrever para lembrar

Jorge Miguel Marinho*

... a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


O fragmento acima pertence ao poema “Ausência”, de Carlos Drummond de Andrade, e foi escrito pelo poeta quando soube da morte da poetisa Ana Cristina Cesar, que aos 31 anos deixava para os seus leitores e para a memória do tempo a sua obra, considerada no universo da poesia uma das vozes femininas mais expressivas e singulares da literatura brasileira contemporânea.

Diante da morte da escritora, fatídica porque revela que os jovens também morrem, Drummond busca o conforto da palavra, extraído da própria dor, e escreve o poema “Ausência” que é um tributo à memória. Muito provavelmente, imaginando que a poesia é a palavra que salva e a memória da palavra pode até vencer a morte, ele dialoga com Clarice Lispector quando ela confere ao ato de escrever um possível absoluto diante da transitoriedade da vida: Se escrever não salva, não escrever salva menos ainda, às vezes não salva nunca.

No reduto da memória, os escritores conversam, não importa o tempo ou o lugar em que estejam – os escritores sabem que as pessoas escrevem até para lembrar o que não existe. Osman Lins sempre escreveu para conversar com o mundo e acreditava que, no imaginário da memória, podia ao menos recuperar o rosto das pessoas que partiram provisoriamente ou para sempre, como o rosto de sua mãe que morreu quase antes de ele ter nascido. Este exercício da memória comungado com a arte de criar é uma das motivações da sua literatura: É a literatura um modo de transfigurar e de fazer com que durem mais um pouco, só mais um pouco, na memória do mundo, certos rostos que amamos. Isto para não falar dos seres que não há, que não havia, que Deus, por distração ou por nos dar uma chance, deixou de criar e que passam a existir por força das palavras.

Harold Bloom, um dos estudiosos mais sensíveis ao universo da leitura, diz que o pensamento poético é sempre uma forma de memória. Talvez o ato de escrever – vocação de escritores ou de pessoas anônimas –, de alguma forma, venha do desejo, consciente ou não, de não esquecer, de viver nas palavras as experiências vividas, de preservar a memória.

Nesse universo tão amplo e tão atraente, vale lembrar que ler também é memória.

Tanto é assim que a presença constante de cenas de leitura nos livros, sobretudo nas obras literárias, revela que o ato de ler, por ser um exercício de extrema concentração, talvez o maior, como declara Ricardo Piglia, é uma das motivações mais vivas da memória. Isso, é claro, quando a leitura é “significativa”, aquela que confere sentido à existência de quem lê e à existência coletiva, considerando que a literatura sonha nas palavras o sonho de todos.

Lembrando momentos de leitura ou recordando cenas vividas, são incontáveis os escritores que fizeram da memória um registro humanizador e criativo da sua arte de escrever e de lembrar. Entre eles, alguns poucos que permanecem na memória afetiva de tantos leitores: Manuel Bandeira com Itinerário de Pasárgada, Helena Morley com Minha vida de menina, Pedro Nava com Baú de ossos e toda a sua obra, Graciliano Ramos com Infância e Memórias do cárcere, Gabriel García Márquez com Cem anos de solidão, Elias Canetti com A língua absolvida, Rubem Braga com Casa dos Braga: memória de infância, Manoel de Barros com Memórias inventadas, Marcel Proust com Sobre a leitura, José Saramago com As pequenas memórias, Oswald de Andrade com Um homem sem profissão, Zélia Gattai com Anarquistas graças a Deus, Roland Barthes com Diário de luto.

Existem também os anônimos que se tornaram escritores conhecidos pelo exercício de anotar pequenas e grandes porções de vida do seu cotidiano, lembranças de um passado lá distante e saudades vividas no presente, cadernos e cadernos de poucas alegrias e muitos sofrimentos, numa escrita de um longo tempo que se tornou memória. É o caso Carolina Maria de Jesus, favelada, catadora de lixo, mãe solteira de três filhos e vinte cadernos com as lembranças de cada dia por um longo tempo, até o dia em que, por acaso, virou escritora. Um trecho do seu livro Quarto de despejo, publicado em 13 idiomas e lido em 40 países, diz muito da sua memória afetiva:

Não digam que fui rebotalho
que vivi à margem da vida.
Digam que eu procurava trabalho,
Mas fui preterida.
Digam ao povo brasileiro
que meu sonho era ser escritora,
mas eu não tinha dinheiro
para pagar a editora. 

Pensando mais uma vez em Gabriel García Márquez, que muito particularmente alcançou imprimir nas memórias a sua natureza afetiva, componente emotivo e primordial das lembranças das “coisas” passadas que se fazem “coisas” presentes sem tempo de duração, são dele essas palavras: 

Recordar é fácil para quem tem memória,
Esquecer é difícil para quem tem coração.

É da memória que se subtrai a matéria humanizadora para escrever e lembrar. Lembrar para ser o que somos, lembrar para viver a experiência dos outros, lembrar para inventar os dias e suprir todas as ausências, lembrar para tocar a história acontecida e imaginar a história que está por acontecer, lembrar para saber esquecer que também faz parte da memória.

*Jorge Miguel Marinho é professor de Literatura Brasileira com pós-graduação pela Universidade de São Paulo (USP), coordenador de oficinas de criação literária, dramaturgo, roteirista, ator, pesquisador de componentes lúdicos na crítica literária com os livros Nem tudo que é sólido desmancha no ar – ensaios de peso e A convite das palavras – motivações para ler, escrever e criar, autor de livros de ficção literária, entre eles, Te dou a lua amanhã – uma biofantasia de Mário de Andrade e  Lis no peito – um livro que pede perdão, premiados com o Jabuti.

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Leia outros textos desta coluna: 
Querido diário
A Literatura Fantástica é fantástica
Cartas sensíveis e sentimentais 
A ficção é realidade
O leitor – de criatura a criador
Fabulação: um mundo onde todos sonham

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