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EM REVISTACOLUNAS — QUERIDO DIÁRIO...
17/09/2015

Querido diário

Jorge Miguel Marinho*

Tenho vontade de escrever e uma necessidade de desabafar tudo o que está preso em meu peito. O papel tem mais paciência do que as pessoas.
Anne Frank

A primeira motivação que faz alguém buscar refúgio num diário é um gesto emotivo. Eu preciso conversar comigo e com o mundo, real ou imaginário. Estou só. Imagino que nunca estive tão só. Abro as páginas do meu diário e sou acolhido incondicionalmente. Sinto nesse momento que poucas vezes fui abraçado assim.

Meu amigo diário, meu discreto companheiro, meu conforto melhor. Agora e sempre. Pessoa com quem eu posso falar sem a menor censura ou constrangimento. Um segredando para o outro seus sonhos e suas inquietações, conversa desarmada em qualquer hora e qualquer lugar, diálogo sem tempo de duração.

Meu diário me ouve pacientemente e me dá retorno no seu aparente silêncio que guarda muitas palavras, quase todas elas escritas com a minha caligrafia e que ele devolve com a fidelidade, a compreensão e a transparência das suas digitais. Meu diário muda de palavras como eu mudo de olhar lendo as mesmas palavras que escrevi. Para nós, a vida é memória do que aconteceu e promessa do que vai acontecer. Nós dois sabemos da transitoriedade das coisas, da passagem do tempo, do trajeto tocável e ao mesmo tempo efêmero de viver. Por isso meu diário existe para lembrar que eu existo e posso escrever a minha história num diário sem “nunca jamais” ensaiar um ponto-final.

Todo aquele que escreve busca alguém, ou escreve para alguém. Com meu diário acontece o mesmo. Escolho palavras espontaneamente, converso com ele sem pudor, silenciamos, e é no silêncio que encontramos o nosso melhor diálogo. Não sei se Drummond escrevia diários, mas ele sempre soube disso:

Escolhe teu diálogo
  e
tua melhor palavra
   ou
teu melhor silêncio.
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.

Como todo mundo que escreve diário, guardo o meu num lugar clandestino e tranco a sete chaves. Ainda não perdi as esperanças de que um dia alguém vai encontrar o meu esconderijo e meu diário vai se tornar segredo coletivo, palavra comum, comunitária, comunhão. Roland Barthes já avisou: consciente ou inconscientemente, este é o desejo de qualquer pessoa que escreve diário, apelo afetivo do diário também. Os dois querem ser lidos ao menos uma vez.

Penso em todas as pessoas que escreveram diários, em particular os escritores que encontraram nesse modelo de expressão a motivação para se ver, se entender, se revelar nas palavras e tornar a sua experiência única e pessoal mensagem coletiva. São tantos os que fizeram da solidão solidariedade: Anne Frank, Goethe, Susan Sontag, Helena Morley, Che Guevara, Albert Camus, Cora Coralina, Ana Cristina Cesar e muitos outros. Não poucos buscaram no diário o conforto ou um “destino” para vencer os infortúnios da vida, até mesmo a morte de alguém. É o caso de Roland Barthes, que num dia perdeu a mãe e no outro iniciou seu Diário de luto, que se tornou livro de cabeceira para tantos diaristas ou não.

Nesse universo, somos todos meio iguais: escrever, se guardar e um dia se mostrar. Escrevo meu diário, fecho o caderno de capa dura por um instante, me despeço provisoriamente. Por acaso, leio uma frase de Mário de Andrade que me lembra como o meu diário, lugar onde eu me confesso, me faz mais humanamente perto do mundo: Ninguém escreve para si mesmo, a não ser um monstro de orgulho, a gente escreve para atrair, para ser amado, para encantar.

Por mais um tempo, finjo que esqueço que tenho um diário para, de repente, voltar a ele, abrir as páginas, pegar a caneta e, antes de partilhar com ele mais um segredo, sentir, com uma grata emoção, o quanto eu posso ser triste e o quanto eu posso ser feliz. Dentro e fora do entrecapas. Amigos, cúmplices, iguais que podem ficar juntos com o conforto do silêncio.

 

* Jorge Miguel Marinho é professor de Literatura Brasileira com pós-graduação pela Universidade de São Paulo (USP), coordenador de oficinas de criação literária, dramaturgo, roteirista, ator, pesquisador de componentes lúdicos na crítica literária com os livros Nem tudo que é sólido desmancha no ar – ensaios de peso e A convite das palavras – motivações para ler, escrever e criar, autor de livros de ficção literária, entre eles, Te dou a lua amanhã – uma biofantasia de Mário de Andrade e  Lis no peito – um livro que pede perdão, premiados com o Jabuti.

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Leia outros textos desta coluna:
A Literatura Fantástica é fantástica
Cartas sensíveis e sentimentais
A ficção é realidade
O leitor – de criatura a criador
Fabulação: um mundo onde todos sonham

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COMENTÁRIO(S)
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MARIAMARIA disse em 24/08/2014 10h48
Olá JORGE Adorei seu texto, sempre escrito com muita sensibilidade...
GLAUCIAGLAUCIA disse em 02/04/2014 21h34
AS motivações são sempre bem vindas,pois nos renova das cinzas
ÂNGELAÂNGELA disse em 02/04/2014 21h03
Amei as motivações para o professor.
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