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EM REVISTACOLUNAS — A LITERATURA FANTÁSTICA É FANTÁSTICA...
17/09/2015

A Literatura Fantástica é fantástica

Jorge Miguel Marinho*

“Sabendo que narrar faz parte da condição humana, Deus decidiu contar a história do universo. Experimentou diversas vozes, mas nenhuma delas fez eco na criação. Foi então que descobriu que a ficção é palavra que salva e Ele se salvou.”

Pondo fé no que o fragmento acima sugere, a ficção não tem começo nem fim e parece fazer eco no próprio ato criador. Vivemos também e muito da fantasia e extraímos dela imagens e palavras que espelham “coisas” muito reais.

Nesse universo que funde realidade e ficção, a Literatura Fantástica tem lugar de destaque e uma voz muito singular. De modo geral, ela é entendida como uma narrativa – conto, novela, romance – que transgride ou subverte as leis naturais do universo concreto, inserindo na ficção “o sobrenatural”, isto é: aquilo que não tem possibilidade de acontecer no mundo real.

Existe uma Literatura Fantástica que atua no sentido de entreter e emocionar, ainda que provoque o susto ou o pânico no leitor, muito especialmente as histórias de terror. São aquelas histórias de arrepiar: feitiços, aberrações, possessões de homens e mulheres, de crianças também, aparições diabólicas, lobisomens e vampiros, mortos-vivos, fantasmas, seres metamorfoseados, apavorantes, sobrenaturais.

Entretanto, quando se fala em Realismo Fantástico, ainda que seus componentes expressivos sejam situações sobrenaturais, como um homem que vira inseto durante o sono em A metamorfose, de Franz Kafka – muito mais do que o entretenimento, a diversão ou o espanto, que no fundo provoca um medo desejável como quase tudo que é espetacular –, o que o escritor busca é uma reflexão ou uma súbita revelação do real.

Nesse sentido, os critérios de avaliação de um fato fantástico, no mundo da Literatura, têm sempre como referência ou ponto de partida o repertório normativo do leitor: como ele vê a vida, como atua na realidade, o que deseja, o que sonha, o que já leu e como essas histórias aparentemente estranhas, esquisitas, bizarras sensibilizam, repercutem, inquietam, atemorizam ou até escandalizam a sua maneira de ser.

Em síntese, o que – em termos políticos e existenciais – o chamado Realismo Fantástico quer é inquietar ou desacomodar as expectativas confortavelmente emocionais do leitor. E mais: será Realismo Fantástico todas as formas narrativas em que os componentes sobrenaturais estejam voltados para esta súbita descoberta ou redescoberta da “vida” como se a “vida” fosse surpreendida pela primeira vez.
Motivando este olhar, o Fantástico faz acordar uma percepção mais sensível e funda do “estranho” e do “absurdo” que estão presentes na existência de fato e as pessoas naturalmente “aceitam” no dia a dia como “coisas reais e coisas muito comuns.”

Não se trata, portanto, de instaurar o terror, o insólito ou o estranho como elemento de pura fruição, prazer estético ou simples apelo emocional, mas sim de expressar de forma “absurda e hiperbólica” a realidade concreta, comum, ordinária e absurdamente normal. De fato, não são os acontecimentos impossíveis e sobrenaturais que por si só garantem a estranheza da Literatura conhecida como Realismo Fantástico, mas sim a “naturalidade” com que os personagens se colocam diante do absurdo e sobretudo a “naturalidade” na forma de narrar.

Por estas razões, o Realismo Fantástico – Realismo Mágico ou Maravilhoso como também é conhecido – acredita de fato que, se as pessoas se inquietam, se perturbam ou se escandalizam diante de uma manifestação artística, é porque esta inquietação, esta perturbação, este escândalo já viviam dentro delas e a Arte do Fantástico só fez “revelar”. É como se ser humano tivesse o hábito de conviver com o que é estranho, assustador, desumano como se este modo de viver fosse uma ordem, uma disciplina, um destino completamente natural.
André Breton, mestre do Surrealismo, sabia disso muito bem e dizia uma frase que faz todo sentido no nosso mundo:

O que é admirável no fantástico é que não existe fantástico: só há o real.

Seria de se pensar como o Realismo Fantástico continua sendo muito significativo nos nossos dias e vai permanecer como “alerta” – as suas palavras, imagens e histórias lembram um espelho que reflete os mistérios da natureza humana, o absurdo das guerras e a solidão dos desvalidos, a eficiência da tecnologia e a miséria que atinge populações, a solidão, a violência, o desamor e todas as mazelas de “uma vida inteira que podia ter sido e não foi”, para lembrar um verso de Manuel Bandeira.

Octavio Paz, ensaísta, poeta e prêmio Nobel de Literatura, sintetiza também estas considerações todas com rara expressividade e precisão, pondo em destaque a aguda atualidade do Realismo Fantástico quando declara e até denuncia:

Hoje as pessoas convivem com toda a sorte de absurdos da realidade de fato, mas não convivem naturalmente com o absurdo posto na ficção.

E é por tudo isso e muito mais que a Literatura Fantástica é fantástica.


* Jorge Miguel Marinho é professor de Literatura Brasileira com pós-graduação pela Universidade de São Paulo (USP), coordenador de oficinas de criação literária, dramaturgo, roteirista, ator, pesquisador de componentes lúdicos na crítica literária com os livros Nem tudo que é sólido desmancha no ar – ensaios de peso e A convite das palavras – motivações para ler, escrever e criar, autor de livros de ficção literária, entre eles, Te dou a lua amanhã – uma biofantasia de Mário de Andrade e  Lis no peito – um livro que pede perdão, premiados com o Jabuti.

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Leia outros textos desta coluna:

Cartas sensíveis e sentimentais
Fabulação: um mundo onde todos sonham
O leitor: de criatura a criador
A ficção é realidade  

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COMENTÁRIO(S)
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BRAIMABRAIMA disse em 03/03/2014 10h09
Vale a pena ler e lendo o texto entende-se mais ainda que o que vale é saber lidar com tudo aquilo que lemos. O saber separar a realidade e a fantasia, faz e fará parte do cotidiano do ser humano, que tem sentimentos. e vamos viver o mundo de ilusões, porém sem esquecer o mundo real onde vivemos.
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