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EM REVISTACOLUNAS — CARTAS SENSÍVEIS E SENTIMENTAIS...
17/09/2015

Cartas sensíveis e sentimentais

 Jorge Miguel Marinho*

Tanta verdade tristonha
Ou mentira risonha
Uma carta nos traz.

Aldo Cabral e Cícero Nunes

Como canta a epígrafe, a sensível motivação das cartas pessoais registra sempre emoções de dor e de alegria e, ainda que buscando ocultar as emoções, tem um único destino: a caligrafia das palavras sentimentais.

Quando André Comte-Sponville confessa que “Numa carta só atingimos o outro ficando mais próximos de nós”, entendemos melhor o que já sabemos e sentimos: escrever cartas é diálogo bem de perto com o outro, tentativa de comungar os sentidos de quem escreve e de quem lê, necessidade tão humana de partilhar com o mundo o nosso Eu, a nossa história mais íntima, o nosso modo de ser.

Ideias, emoções, sonhos são palavras que pulsam em cada um de nós e buscam, no trajeto feliz ou infeliz de uma correspondência, um sentido para a experiência única de viver e existir.

Um remetente e um destinatário nos extremos de uma página, um local e uma data na margem esquerda, o corpo da mensagem com vocativos, reticências e exclamações, a despedida provisória ou definitiva, a assinatura sem sobrenome lembrando o nome de quem remete e o nome de quem vai receber. Depois a missão do correio na breve ou longa viagem para o encontro de corações.

Cartas têm uma presença das mais tocantes na vida e na arte que acolhe o seu imaginário intimista e faz delas uma fonte de inspiração. Num momento em que vivemos a velocidade e soberania dos dígitos, as cartas manuscritas ou datilografadas preservam as digitais amorosas e celebram o trabalho das mãos. Seus cúmplices são o cinema, o teatro, a música, a pintura e particularmente a Literatura, que, buscando eco na correspondência, se envaidece de jogar com letras e papel. Nessas diversas expressões artísticas, a subjetividade aflora e todos os apelos são sensíveis e sentimentais: amor, ódio, saudade, rancor, vingança, ternura, urgência, medo, traição, ironia, paixão e compaixão.

O filme Nunca te vi, sempre te amei, dirigido por David Hugh Jones, constrói toda a sua sensível narrativa na troca de cartas entre um funcionário de uma loja de livros em Londres e uma escritora norte-americana. A existência invisível do correio aproxima os dois no tempo e no espaço, à medida que o sentimento de amizade e amor transcende a geografia dos países e conquista uma dimensão universal. Eles nunca se veem e simbolicamente vão se amar para além da vida e da morte pela natureza tão humana da correspondência de pessoa para pessoa. E mais: pela permanência das palavras na memória afetiva que, ao menos como promessa de encontro, se oferece como uma história sem fim.

O tom introspectivo e autocentrado das cartas encontra na música um tom afinado e vai fazer um percurso melódico da confissão melancólica à ironia debochada e informal. Nesse fluxo emotivo tão familiar à Jovem Guarda, Lilian Knapp e Renato Barros cantam a desilusão amorosa no lamento rasgado das cartas:

Rasgue as minhas cartas
E não me procure mais
Assim será melhor
Meu bem! 

E Chico Buarque e Francis Hime travam um bate-papo saudoso e descontraído para dar voz à ironia e fazer a denúncia de tempos de opressão:

Meu caro amigo, me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como apareceu um portador
Mando notícias nessa fita
[...]
Mas o que eu quero é lhe dizer
Que a coisa aqui está preta.

Assim, há uma harmoniosa ressonância entre as cartas e as artes de modo geral, mas é na Literatura que acontece o melhor encontro de expressões. São incontáveis os escritores obsessivos e frenéticos da arte epistolar. Ao acaso, apenas algumas passagens que se revelam como uma correspondência de vozes com o timbre da paixão.

Sóror Mariana Alcoforado, num convento português no século XVII, escreve para o seu amado distante, um oficial francês, cartas de amor no limite da paixão e do ressentimento, subvertendo o hábito religioso com o grito erótico de dor e abandono de uma simples mulher:
Que será de mim?... e que queres que eu faça? E como é possível, com tanto amor, eu não ter podido fazer-te venturoso?

As mulheres parecem ter uma enseada particular no mundo das cartas e Rosa Luxemburgo, correspondente compulsiva e ativista política das mais radicais, extrai desse tipo de comunicação prosaica e afetiva um modo de falar aos companheiros de luta, numa época em que o telefone quase não tinha lugar. É poética e de um vigor existencialista a sua voz nas cartas revelando, por vezes, uma sensível sintonia com a passagem do tempo e a certeza de um tempo maior, absoluto e sem duração:

Oh, por favor, prestem atenção a este dia maravilhoso!
[...] este dia não voltará nunca, nunca mais!

Sensível a esta atmosfera grave e ao mesmo tempo enternecida das cartas, Ana Cristina Cesar tem no diário íntimo e na correspondência confessional o modelo exemplar para a expressão de uma das vozes mais originais da poesia brasileira. Ela sabe das cartas:

Você não acha que a distância e a correspondência alimentam uma aura (um reflexo verde na lagoa no meio do bosque)?

Muitos escritores escrevem seus livros na forma de cartas – basta lembrar Tomás Antônio Gonzaga com Cartas Chilenas, Johann Wolfgang von Goethe com Os sofrimentos do jovem Werther, Julio Cortázar com Carta a uma senhorita em Paris, Pierre Abélard (ou autor desconhecido) com A correspondência de Abelardo e Heloísa, Rainer Maria Rilke com Cartas a um jovem poeta, e tantos outros. Este também é o caso de Caio Fernando Abreu, escritor que tratou das inquietações e sonhos da geração pós-anos 60 como nenhum outro. Deixando por um momento a irreverência, o sentimento de autodevassa, a carência de ser amado não só como escritor, apelos muito presentes na sua obra, é na nudez das cartas pessoais que ele acaricia o pai:

Querido pai,
ficou na minha cabeça uma frase que o senhor disse logo ao voltar daquela viagem a Santiago, algo como "Eu morri e não sei." Ô pai, que é isso?

São muitos os escritores que buscaram nas cartas o seu modo de interlocução tão sensível e humano com o mundo, com especial destaque para Mário de Andrade, possivelmente o correspondente mais contumaz e solidário da Literatura brasileira. Escrevia diariamente e nunca deixou um remetente sem resposta, pouco importando se fosse Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Tarsila do Amaral ou um poeta anônimo do extremo norte do Brasil. Para finalizar provisoriamente esse breve correio afetivo, segue uma passagem de uma carta que ele escreveu para um destinatário específico mas, pelo horizonte poético e uma tocante afeição pelo outro, tem como destino todos nós:

Escrevo esta carta por saudade de ver você, adormecer no seu silêncio que qualquer dia desses explode feito um coral. Como se fosse a primeira hora de Deus.

* Jorge Miguel Marinho é professor de Literatura Brasileira com pós-graduação pela Universidade de São Paulo (USP), coordenador de oficinas de criação literária, dramaturgo, roteirista, ator, pesquisador de componentes lúdicos na crítica literária com os livros Nem tudo que é sólido desmancha no ar – ensaios de peso e A convite das palavras – motivações para ler, escrever e criar, autor de livros de ficção literária, entre eles, Te dou a lua amanhã – uma biofantasia de Mário de Andrade e  Lis no peito – um livro que pede perdão, premiados com o Jabuti.

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Leia os textos anteriores desta coluna:
Fabulação: um mundo onde todos sonham
O leitor: de criatura a criador
A ficção é realidade
A Literatura Fantástica é fantástica

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COMENTÁRIO(S)
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TELMA CRISTINATELMA CRISTINA disse em 03/10/2018 23h53
Jorge, querido Jorge! Como adoro ler suas palavras! E de vez em quando passeio pelas colunas pro caminho ficar mais colorido, mais leve e pra não esquecer de caminhar! Com admiração de uma vida inteira e mais um dia Telma Cris Cruzeiro/SP
MARIAMARIA disse em 12/02/2014 16h39
Parabéns Jorge por este belo texto! Que saudades do tempo em que escolhia vagarosamente os papéis de carta. Cada pessoa merecia um cuidado singular nessa escolha. Que pena que nos tempos virtuais e atuais essa prática tenha sido quase abolida. Semana passada remexendo os papéis encontrei vários poemas escritos em minha homenagem por uma colega de faculdade. Que surpresa agradável, por isso quero compartilhar esse momento e sentimento com você. Obrigada.Abraços
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