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EM REVISTACOLUNAS — A FICÇÃO É REALIDADE...
17/09/2015

A ficção é realidade

Jorge Miguel Marinho*

“A vida é sonho”, considerava Calderón de La Barca, numa peça para teatro com o mesmo nome, anunciando uma espécie de alquimia simbólica que buscava instaurar a transmutação de fantasia em realidade e de realidade em fantasia. Muitos reconheceram nessa visão de mundo nuances significativas, intencionais ou não, do pensamento hindu, da mística persa e da filosofia budista. Os limites entre real e sonho se apagam e viver é percorrer o trajeto poético da ficção.

Jorge Luis Borges, que se achava mais leitor do que escritor, nos seus expressivos e singulares achados sobre leitura, insistia “que a realidade é ilusão e que a ficção é o real”.
Borges não parece estar jogando com palavras ou buscando imagens literárias quando afirma que viver é uma ilusão e que, vivendo, fazemos da ficção a realidade. Mais do que um alerta de natureza literária, trata-se de uma afirmativa de ordem filosófica que acabou por iluminar a estreita relação entre sonho e real, a ponto de o primeiro suplantar o segundo.

De algum modo e acreditando nos mistérios que regem os encontros de escritores, é bem possível que Fernando Pessoa tenha escutado, no silêncio do seu quarto solitário em Portugal, o eco das palavras de La Barca e Borges remetidas da Espanha e Argentina e tenha dado o retorno com dois versos que nasceram na Roma Antiga, passaram para as mãos dos navegadores portugueses e chegaram à voz de Caetano Veloso pela mensagem lúdica que eles contêm:

Navegar é preciso
Viver não é preciso 

O que se faz “preciso” nesse aviso poético é que o sonho, a fantasia e a aventura vividos na arte de viajar nas águas dos mares e dos rios correm e escorrem sempre para as águas da imaginação.

De fato, a ficção é realidade, não apenas por fazer parte das nossas fantasias e sonhos, mas por estar muito presente na narrativa ou na história de vida de cada um de nós. Desse modo, a ficção literária é profundamente humanizadora porque ela só se interessa pela condição humana e pelo sentido da existência coletiva. A ficção nas mais diferentes formas de expressão artística, com especial destaque para a Literatura, sempre se pergunta “o que é a vida” e acorda as eternas perguntas que estão dentro de todos nós: “de onde vim?, para onde vou?, quem sou eu?, o que faço aqui?, quem são os outros?, qual é o sentido da existência?”.

Pela expressividade da arte literária, seu poder de representação, seus lances de inquietação, descoberta e revelação, não é exagero dizer que a ficção parece mais real do que a própria realidade.

Por tais razões, não é nada desejável, em todo o território brasileiro e no universo sem fim, dizer que uma realidade literária, vivida ou imaginada e por mais absurda que seja, “não é verdade, é mera ficção”. Chamadas desse tipo ainda fazem parte do repertório de leitura de muitas pessoas e especialmente dos alunos que, mal orientados ou lendo livros que não tocam as suas emoções, consideram a Literatura como um universo paralelo, distante e afastado da realidade de fato, poemas e narrativas totalmente sem vínculos com o real.

Muitos escritores escreveram, sem a preocupação de convencer os menos avisados, apenas como tributo à ficção presente na arte, frases iluminadoras que esclarecem e implodem este mal-entendido:

A literatura torna o mundo real, dando-lhe forma e permanência. – Fernando Pessoa.

O que há de mais real para mim são as ilusões que crio com a minha pintura. – Eugène Delacroix.

E eu, como leitor entusiasmado, não perco a oportunidade e a alegria de dizer:

Só me sinto real na ilusão literária.

Como a palavra contém na raiz o seu universo de significação, ficção – do latim fictionem/fingo/fingere – quer dizer tocar com a mão, modelar na argila, fazer. O poeta, portanto, é aquele que toca, que modela, que faz, que cria a realidade com o trabalho das mãos. Apenas para lembrar simbolicamente o ato da criação, é do barro que Deus extrai a matéria para dar forma e substância ao homem. Se essa narrativa é verdadeira ou não, tal juízo não tem lugar aqui – o que importa é que, sendo ficção ou realidade, o acontecimento de fato está no imaginário de todos nós.
E, por falar em fazer, façamos um pouco de ficção da vida e façamos um pouco mais de vida da ficção.

* Jorge Miguel Marinho é professor de Literatura Brasileira com pós-graduação pela Universidade de São Paulo (USP), coordenador de oficinas de criação literária, dramaturgo, roteirista, ator, pesquisador de componentes lúdicos na crítica literária com os livros Nem tudo que é sólido desmancha no ar – ensaios de peso e A convite das palavras – motivações para ler, escrever e criar, autor de livros de ficção literária, entre eles, Te dou a lua amanhã – uma biofantasia de Mário de Andrade e  Lis no peito – um livro que pede perdão, premiados com o Jabuti.

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Leia outros textos desta coluna:

A Literatura Fantástica é fantástica

Cartas sensíveis e sentimentais

Fabulação: um mundo onde todos sonham.

O leitor: de criatura a criador.

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