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EM REVISTACOLUNAS — LER É UM DESEJO DE SER...
07/03/2016

Ler é um desejo de ser

Formado em Letras e mestre pela Universidade de São Paulo, Jorge Miguel Marinho é professor de Literatura, coordenador de oficinas de criação literária, roteirista, ator e escritor. 

O leitor – de criatura a criador
Jorge Miguel Marinho

“Ler não é só um ser com desejo, ler é um desejo de ser".

A amplitude poética dessa afirmativa cai muito bem para expressar a experiência imperdível da leitura e a busca de afirmação da subjetividade de alguém no mundo das palavras. Outras considerações, num leque de lances e conceitos quase infinito, têm lugar de destaque no território das reflexões sobre leitura e são muito bem-vindas. Entre elas, uma merece especial atenção:

“Ler não é simplesmente decifrar o sentido das palavras, como um jogo de adivinhações. Ler é fazer do texto um espaço legível, e ser sensível e capaz de atribuir a ele significação.”

Indiscutível, porém, a complexidade, a disponibilidade, a multiplicidade de sentidos, os arranjos sugestivos, as brechas de significação, mesmo nos textos referenciais, parecem solicitar mais do que uma leitura sob o crivo da razão, e é aí que entra o imaginário do leitor. Isso porque sentir, imaginar e criar são modos de pensar e também componentes praticamente simultâneos nas trilhas da leitura, nos caminhos da criação.

Hoje a filosofia e a psicanálise consideram com propriedade que todos os seres sensíveis vivem e transitam pelo mundo porque são motivados pelo desejo, e ninguém é capaz de desejar sem imaginação. Quando abri acima esta breve reflexão sobre a experiência do leitor, de criatura a criador, com o fragmento “... ler é um desejo de ser”, o que busquei colocar em relevo é que a leitura se move, com uma dinâmica muito singular, pelo desejo de entender, imaginar e recriar o mundo traçado pelas palavras e o mundo em que se vive de fato e pode ser revisto, reordenado e reinventado pela sensibilidade do leitor.

É da natureza do ser humano uma expressiva propensão para viver a fantasia e o fantástico pelo simples fato de viver e desejar transcender a realidade em busca de outros mundos, conhecidos ou imaginados, todos eles motivados e centrados na experiência real.  Sendo o ato de ler uma experiência tão intensa e concentrada como afirma Ricardo Piglia, a leitura se funde e se confunde com o próprio ato de viver. Assim, chamo aqui de leitor criativo quem lê com a sensibilidade de percepção das pulsações significativas de um texto que se revelam nas suas camadas mais explícitas; mas, também e por vezes sobretudo,é aquele leitor que assimila, atina e desvenda a sua dimensão lúdica e simbólica. Esta que é a base da literatura com a marca da fabulação e de tantos outros gêneros que faz da “expressividade” um modo de dizer bem e dizer mais, se oferecem no jogo de palavras, imagens afetivas, sons e ritmos sugestivos, corte e recorte de frases, achados emotivos e sensoriais, palavras de sentido imprevisível recriadas com palavras de sentido familiar.

É isto: ler é uma experiência essencialmente subjetiva e, quando lemos Shakespeare, Clarice Lispector, Rubem Braga e tantos outros, passamos a ser esses escritores e, como leitores criativos, guardamos e recriamos as suas palavras e personagens, no nosso universo íntimo e na vida coletiva, como nossas vivências e revelações.

A maioria dos escritores, que - com paixão e entusiasmo - confessam sua história de leitura, celebram a sua configuração mágica, não apenas como ato, mas como fonte de descoberta de mundos conhecidos e desconhecidos que não existiam e, pela força sugestiva das palavras, passam a existir. E também aquelas realidades, fantasias e aspirações que pairavam nas camadas mais subjetivas do ser e, pela força emotiva das palavras, acordaram e se tornaram vivências no reduto íntimo e existencial de cada um. A ideia de um leitor criativo aparece de forma explícita ou insinuada em todas as concepções. A título de ilustração, algumas:

“A leitura é um espaço de liberdade e imaginação: é um lugar de aventura.” – Davi Arrigucci

“Não existe nada simultaneamente mais real e mais ilusório do que o ato de ler.” – Ricardo Piglia

“Às vezes creio que os bons leitores são cisnes mesmo mais tenebrosos e singulares que os bons autores.” – Jorge Luis Borges

Por tudo isso, com destaque para Borges, que celebra o leitor criativo como “cisne” da aventura única de ler, é bom continuar ouvindo e acolhendo as suas palavras quando ele alerta, com aquela voz grave e iluminadora, que ecoa num tempo que não tem tempo de duração:

“A leitura obrigatória é inconcebível, já que nenhuma felicidade é obrigatória.”

Nunca é demais colocar em destaque que o ato de ler, percorrendo um território entre a realidade de fato e o jogo do imaginário, identificando sentidos e recriando outros, casando conhecimento com prazer, é uma experiência única e imperdível – é um lugar de liberdade, de aventura e também de criação.

E mais: todo leitor criativo descobre seu modo de sonhar acordado, de ler e de ser feliz.

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Leia outros textos desta coluna:

A Literatura Fantástica é fantástica
A ficção é realidade
Cartas sensíveis e sentimentais
Fabulação: um mundo onde todos sonham

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COMENTÁRIO(S)
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MARIA LEANI DANTAS FREITASMARIA LEANI DANTAS FREITAS disse em 02/06/2014 17h10
Comungando das ideias de Frank Smith, ler é um jogo de adivinhações, não é apenas decifrar o sistema de escrita, mas, sobretudo, ativar nossos conhecimentos sobre o tema em pauta para que possamos "adivinhar" o sentido, que é a própria leitura, subjetiva a cada indivíduo.
KATIA MARIA DE OLIVEIRA MAMEDEKATIA MARIA DE OLIVEIRA MAMEDE disse em 28/11/2013 02h37
"ler é uma experiência essencialmente subjetiva" Depois que uma obra e escrita e divulgada ela passa a ter vários autores, pois cada leitor irá interpretar e recriar o escrito conforme suas vivências.
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