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EM REVISTACOLUNAS — A ALFABETIZAÇÃO É PARTE DO DIREITO À EDUCAÇÃO EM QUALQUER IDADE...
29/01/2014

A alfabetização é parte do direito à educação em qualquer idade

Antônio Gomes Batista, doutor em educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é professor associado da mesma instituição e professor convidado do curso de Especialización y Maestría de la Universidad Nacional de La Plata (Argentina). Pesquisa a alfabetização e a cultura escrita, assim como a produção dos saberes escolares na disciplina Português. Atualmente é coordenador de desenvolvimento de pesquisas do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

Nesta crônica, o pesquisador aborda as estratégias dos adultos não alfabetizados para inserir-se na cultura letrada, defendendo que o maior ou menor iletrismo não impede sua conscientização e suas possibilidades de participação. No entanto, aprender a ler e escrever significa, para esse grupo, romper a estigmatização e conquistar mais autonomia e independência na sociedade. O autor ainda destaca a importância da alfabetização como direito a ser garantido a todas as pessoas, em qualquer idade.

 Alfabetização em qualquer idade

Por Antônio Gomes Batista

Eu sempre fui fascinado por adultos não alfabetizados e moradores de grandes cidades: eles vivem numa sociedade que se organiza com base na escrita, que estigmatiza aqueles que não dominam as habilidades de ler e escrever com alguma proficiência e onde é a assinatura que vale, não a palavra dada, como em muitas comunidades em que a oralidade ainda reina.

Como eles conseguem se virar nesse mundo que, em princípio, os exclui? Que estratégias encontram para trabalhar, para se movimentar na cidade, para ter acesso a informações, para conhecer e assegurar direitos, para participar da vida política, para construir uma identidade?

Quase sempre, quando conversava com esses adultos, em situações cotidianas ou de pesquisa, o que primeiro aparecia era a quase impossibilidade de se dizer: analfabeto, analfabeto. “Ando com a vista ruim”. “Estou precisando de óculos”. “Estudei muito pouco”. “Lá na roça não tinha escola”. A minha impressão é de que aqueles que mais recusavam o estigma eram os que tinham maiores “níveis” de letramento ou, dizendo de modo mais preciso, eram os que mais participavam da cultura letrada. Haviam vindo para a grande cidade há mais tempo; estavam integrados ao mundo do trabalho; alguns tinham uma intensa participação social, por meio de associações comunitárias, religiosas ou políticas.

A participação na cultura letrada se fazia por meio de diferentes estratégias. Duas eram as mais importantes e motivo de muito orgulho para essas pessoas. A primeira é a memorização – desde receitas dadas por uma “patroa” ou aprendidas por meio da televisão até nomes de produtos à venda na mercearia em que se trabalha. A segunda é a própria oralidade, por meio da qual o não alfabetizado lê e escreve com apoio de alguém ou de uma rede de pessoas que estabelece uma mediação com o mundo da escrita: pergunta-se, pede-se para escrever, conversa-se sobre o que está escrito, debate-se.

Eu já aprendi muito com todos esses adultos sobre modos de ver o mundo, seja com os que participam mais da cultura letrada, seja com aqueles que têm uma participação muito limitada nessa cultura. O maior ou menor iletrismo não impedia suas possibilidades de participação política, não impedia que tivessem consciência, mais que outros grupos mais letrados, das dificuldades que viviam e de injustiças que sofriam. Mas queriam aprender a ler e a escrever. Queriam, mesmo os que, em algum grau, participavam da cultura letrada, se alfabetizar.

Queriam por dois motivos. Primeiro, para romper a exclusão simbólica, o estigma, e suas consequências objetivas, que o estatuto de não alfabetizado gera, como, no caso dos mais jovens, o acesso ao mercado de trabalho e à escolarização e seus certificados. Segundo, especialmente no caso dos mais velhos, para conquistar uma independência e uma autonomia sempre fugidia.

Eu fico pensando nesses adultos, quando se debate idade certa para se alfabetizar. Para se fazer um compromisso ou um pacto da sociedade pela alfabetização, o “slogan” ou “mote” é bom. É preciso, com certeza, de um ponto de vista curricular, definir em que momento da escolarização se espera que as crianças estejam alfabetizadas (embora, sem dúvida, muitas possam se alfabetizar antes desse marco final). É fundamental fazer essa definição. Mas é incorreto usar o termo “idade”.

A alfabetização é parte do direito à educação. Numa sociedade que não assegurou a muitos esse direito, é preciso ainda assegurá-lo. Em qualquer idade. 

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Leia o texto seguinte desta coluna: Alfabetização no momento certo

 

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COMENTÁRIO(S)
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EGLANTINEEGLANTINE disse em 30/01/2017 14h04
Estou adorando as leituras acerca da alfabetização em adultos, no caso ajudará na prática docente com a modalidade EJA. Agradeço muito à Plataforma !Abraços.
MARIA KEILIANE LEITÃO PIMENTELMARIA KEILIANE LEITÃO PIMENTEL disse em 09/12/2016 22h56
Um adulto letrado e alfabetizado tem mais segurança perante a sociedade.Iniciei minha carreira profissional como professora alfabetizadora de jovens e adultos e aprendi muito...
ATENERATENER disse em 29/08/2016 18h54
e muito bom ótimo maravilhoso esse cursos
ATENERATENER disse em 29/08/2016 18h54
e muito bom ótimo maravilhoso esse cursos
JOSELYJOSELY disse em 10/06/2016 00h35
É muito interessante a descoberta da aprendizagem. A idade certa para a alfabetização, eu acredito que esta o aprendiz tem que esta preparado para este fim.
EDITE MARIAEDITE MARIA disse em 11/01/2016 09h39
Reflexão muito boa acerca da alfabetização. Ela pode acontecer em qualquer idade mesmo e o professor deve estar preparado para alfabetizar aquele que na idade infantil não conseguiu a competência leitora mas não pode ser esquecido pela escola. É preciso sim, que a escola assegure este direito a alfabetização ao individuo independente da sua idade.Material muito bom.
IRIS SOLANGE CAVALCANTIIRIS SOLANGE CAVALCANTI disse em 28/09/2014 23h22
A alfabetização deve ser oferecida em qualquer idade. Também trabalho com o Programa Brasil Alfabetizado, como Gestora Local do mesmo, no município de Pesqueira-PE. Estou sempre acompanhando a Formação Inicial e Continuada para Professores Alfabetizadores do PBA, articulando o Projeto Alfaletrando, Projeto Jornal e a Literatura de Cordel, a fim de que os educandos da Alfabetização Popular saiam lendo e escrevendo textos, ao término do Programa, o qual tem 08 (oito) meses de duração. Iris Solange Cavalcanti Gonçalves - Gestora Local do Programa Brasil Alfabetizado, em Pesqueira-PE,
LIANELIANE disse em 21/01/2014 17h08
Muito boa reflexão!
JORGE FERNANDOJORGE FERNANDO disse em 18/11/2013 13h53
Concordo com o professor Antônio quando afirma, em seu texto, que é preciso definir os marcos em que se pode alfabetizar alguém sem perder de vista o aspecto curricular. Idade certa para alfabetizar, penso, não existir. O que na verdade deve existir é a maturação cognitiva da criança/adulto para aprender; até mesmo porque o que é difícil para um adulto aprender para uma criança se torna fácil e vice-e-versa. A escola está aí para atuar dentro da sua função social que lhe é atribuída, entretanto não congue dá conta do seu papel. Precisamos investigar o porquê desse papel não ser cumprido com excelência, visto que os indíces de alunos com pouca ou nada de competência leitora; encontram dificudades em ler uma informação de fácil compreenssão. Isto o impede de frequentar espaço social cuja configuração sócio, econômica e cultural exige atuação com a linguagem mais precisa e formal.
ANTÔNIOANTÔNIO disse em 16/10/2013 17h16
Fico feliz que esta coluna tenha despertado este comentários. Na da próxima semana, continuo a conversa sobre alfabetização "na idade certa". Grande abraço.
PLATAFORMAPLATAFORMA disse em 25/09/2013 11h47
Maria Benedita e Maria Eliene, vocês têm toda a razão! Sobre o tema alfabetização, temos várias publicações na seção "Para aprofundar". Vocês já viram? Basta acessar pelo menu superior da página. Abs.
MARIA ELIENE PEREIRA LIMAMARIA ELIENE PEREIRA LIMA disse em 17/09/2013 12h09
Texto maravilhoso! O bom das leituras é descobrir que sabemos pouco. E cada texto novo nos envolve e amplia os nossos saberes. O processo de alfabetização realmente não tem idade, até porque com o mudo globalizado , com as novas tecnologias, temos que iniciar a alfabetização todos os dias ou seremos excluídos do mundo atual "moderno". Eliene Santaluz BA
MARIA BENEDITAMARIA BENEDITA disse em 16/09/2013 09h31
Realmente alfabetizar é um ato de amor, como professora alfabetizadora me sinto realizada, tanto profissional quanto pessoal, pois é muito grandioso diante da realidade atual que nos deparamos, nos deparamos a cada dia com um novo desafio, e, alfabetizar é uma descoberta de vida.
PLATAFORMAPLATAFORMA disse em 12/09/2013 12h00
A gente sempre aprende com o outro, não é Marlene? Essa é a grande emoção de trabalhar com Educação. Abs!
MARLENEMARLENE disse em 11/09/2013 23h36
Concordo com você, Dute... É fascinante conviver com adultos não alfabetizados nas grandes cidades. comecei minha carreira de professor com um grupo deles e quanto aprendi com eles... Muitos anos se passaram mas aquela sala de aula permanece viva em minha memória!
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