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EM REVISTAREPORTAGENS — LETRAMENTO E MÚSICA: CONTRAPONTO EM HARMONIA...

Letramento e música: contraponto em harmonia


Música e letramento: parceiros na formação integral do ser humano
A música pode contribuir de modo positivo para o letramento de crianças e jovens. O aspecto mais visível é o contato com as palavras, em sua natureza dupla, composta de som (significante) e sentido (significado). Esse contato aguça a curiosidade por descobrir seus significados e aumenta, por um lado, o vocabulário, a capacidade de compreender e interpretar textos, assim como de expressar-se por meio da língua. Por outro, o trabalho lúdico, artístico, envolvendo a sonoridade, por meio de rimas, aliterações, assonâncias, entre outras figuras de linguagem, promove a brincadeira com as palavras, essencial para desenvolver o gosto pela escrita.


“O trabalho de educação musical estimula a escuta, a sensibilidade e a concentração, colaborando no sentido de ampliar a capacidade de significar. O contato com as canções, as cantigas e as brincadeiras cantadas favorece o letramento de um modo mais direto, que também pode ocorrer por outras vias, como nos jogos de inventar canções, geradores dos mais diversos processos relacionados às palavras e seus significados. A construção de significados, essenciais à construção do conhecimento, só pode ocorrer em ambientes cercados, também, pela intenção de significar. Nesse sentido, música e letramento podem criar alianças que produzem conhecimentos, crescimento, reflexão e compreensão”, analisa Teca Alencar de Brito, professora do curso de Licenciatura em Música da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE/USP). Ela é autora de livros sobre o assunto, como Música na educação infantil: propostas para a formação integral da criança (2003) e De roda em roda: brincando e cantando o Brasil (2013).


O professor de música Marcello Mingues D’ Onofre, que leciona na Escola Estadual Dr. Carlos Augusto de Freitas Villalva Júnior, em São Paulo (SP), já percebeu boas mudanças nos alunos. “O estudo da linguagem musical melhora a concentração, e as aulas de canto proporcionam uma melhora na dicção e expressão verbal. Além disso, a leitura das músicas de grandes compositores da nossa cultura, como Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso e Criolo, por exemplo, ajudam na leitura e na compreensão do que o autor está querendo transmitir com sua obra. A música contemporânea e experimental também deve ter seu lugar”, diz.


Com o intuito de enriquecer as aulas e mostrar a variedade sonora e melódica para os alunos, o professor Marcello leva para a sala de aula instrumentos como violão, teclado, escaleta, pandeiro e chocalho, além de utilizar alguns instrumentos de bandas de fanfarra da própria escola. Ele ressalta, porém, que a música não tem a obrigação de facilitar o ensino de outras disciplinas. “O papel da música é o de possibilitar ao ser humano o contato com uma expressão ancestral e culturalmente rica. Estamos falando em educar para formar um ser humanizado, completo”, observa Marcello.


É importante compreender a música como linguagem artística para a expressão humana. A educação musical promove a formação integral dos alunos e não deve ser encarada como auxiliar de outras disciplinas, seja como um meio facilitador para o ensino, seja como uma forma de inserir bons hábitos de higiene ou alimentação. Essa visão limita a música apenas como apoio a determinadas funções e não propicia o seu desenvolvimento como linguagem simbólica.


“A música é vista, em muitos casos e abordagens, prioritariamente como meio para ensinar outras áreas do conhecimento. Assim, entende-se que a música pode colaborar no raciocínio matemático, na alfabetização, além de, com as crianças na Educação Infantil, automatizar comportamentos diversos, como lavar as mãos ou comer lanche. Esses aspectos apenas diminuem a potência do fator musical, aprisionando a música em modelos fechados, servindo a outras questões que empobrecem ou enfraquecem seu acontecimento e, inclusive, as alianças que ela efetivamente pode estabelecer com a cultura e com o conhecimento em sua plenitude”, pondera Teca.


Para fazer música é necessário, antes de tudo, ouvir música, desenvolvendo a percepção auditiva. Se, por um lado, estilos musicais que dialogam com a realidade dos alunos criam laços de identificação, por outro é preciso mostrar a grande diversidade musical existente para a formação do gosto e construção do repertório. Nesse caso, é importante o professor apresentar obras de artistas e gêneros de diferentes lugares e épocas, de concertos de música erudita a canções do folclore regional, de trechos de ópera a shows de rock.


“A escuta de músicas instrumentais, bem como o contato com a produção musical em sua abrangência, também provocam transformações nos modos de ouvir, de perceber, de significar, de ler o mundo, o que, ainda que indiretamente, favorece os processos relacionados ao letramento, pela ampliação da capacidade de perceber, significar, refletir, dentre outros aspectos”, considera Teca.


Em suas aulas, Marcello procura mostrar a diversidade musical para os alunos. “Pesquisando um repertório que facilitasse o canto, achei interessante levar para a aula a obra de Adoniran Barbosa e me surpreendi ao ver como todos gostaram de cantar ‘Trem das onze’. Foi emocionante. Eles ouvem mais o que é veiculado nas rádios, mas também gostam de conhecer outras músicas, outro repertório. Essa atividade me surpreendeu. A pesquisa, a história e a cultura devem adentrar nas escolas”, afirma o educador.

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