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EM REVISTAREPORTAGENS — LETRAMENTO E MÚSICA: CONTRAPONTO EM HARMONIA...

Letramento e música: contraponto em harmonia

Mônica Cardoso


Os dedos pressionam as longas cordas do contrabaixo enquanto o arco desliza suavemente em um movimento compassado. Os olhos estão fixos na partitura à sua frente. Os pés servem de apoio para acomodar o instrumento grandalhão, maior do que a garota. Observadora, ela copiou a posição da foto do professor austríaco, Ludwig Streicher, que está em sua pasta de partituras. Micaelly Kayllane Monteiro de Araújo, de 10 anos, já estudou outros instrumentos da família das cordas, como violino e violoncelo, mas foi pelo som grave que ela se apaixonou.


Além das aulas de contrabaixo, há cinco anos ela também participa das aulas de canto no Instituto Baccarelli. Localizado na comunidade de Heliópolis, a segunda maior da capital paulista, com mais de 40 mil habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Baccarelli atende mais de 1.300 crianças e jovens, oferecendo aulas de musicalização, coral e de todos os instrumentos que compõem uma orquestra sinfônica: violino, viola, violoncelo, contrabaixo, trompete, trombone, percussão, flauta, oboé, clarinete, tuba, fagote, entre outros.


As aulas de música abrem novos horizontes culturais a crianças e jovens como Micaelly. Para aprender a tocar “Ode à alegria” (“Ode to Joy”), parte da Nona Sinfonia, composta pelo austríaco Ludwig van Beethoven, a turma de contrabaixo, da qual a menina faz parte, realizou uma pesquisa sobre o compositor, a pedido do professor, o músico Marcio Rodolfo Rampin. “Lembro que Beethoven era surdo, mas conseguia sentir as vibrações dos instrumentos para compor as músicas, como um celular vibrando”, conta Micaelly. Para recordar o nome da música, a turma apelidou-a de “Onde te dói”. Ao conhecer a emblemática canção da bossa nova “Garota de Ipanema”, a estudante afirma ter gostado das rimas no fim dos versos e ter aprendido sobre os autores Vinicius de Moraes e Tom Jobim. Segundo ela, após frequentar as aulas de música, até seu desempenho na escola melhorou: “Antes eu demorava uma hora para fazer uma prova. Agora, tenho mais concentração e rapidez. Ontem, fui a primeira da classe a entregar a prova”, conta a estudante.


Micaelly cursa o 5º ano do Ensino Fundamental da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, mais conhecida como Gonzaguinha, também em Heliópolis. Foi nessa comunidade que, em 1996, nasceu o projeto de ensino de música pelo maestro Silvio Baccarelli, o qual deu origem ao Instituto Baccarelli. Ao assistir pela televisão um incêndio na comunidade, o músico foi até a escola Gonzaguinha e sugeriu ajudar com o que ele sabia fazer de melhor: ensinar música. Alguns meses depois, 36 crianças iniciavam o estudo de instrumentos de corda. Em 2000, o projeto conquistou o primeiro patrocinador, a Fundação Volkswagen, com quem mantém parceria até hoje.


O ponto de partida no Instituto são as aulas de musicalização. Com crianças de 4 a 6 anos, os professores utilizam a técnica Dalcroze, criada pelo austríaco Émile Dalcroze, que desenvolve o sistema rítmico musical baseado em movimentos corporais. Após os 7 anos de idade, os alunos têm aulas com o professor de expressão cênica, com quem aprendem coreografias.


“Nós aliamos a expressão corporal ao canto porque é preciso, em primeiro lugar, se apropriar do corpo. Os movimentos facilitam o aprendizado das músicas. As crianças gostam, e mais tarde essa mobilidade ajuda na postura e a segurar um instrumento nas aulas de música”, explica Silmara Drezza, regente e coordenadora da área de coral do Instituto Baccarelli desde 2002. “No começo, as crianças sentem certa dificuldade porque, infelizmente, as escolas deixaram de trabalhar o corpo. As próprias cantigas de roda estimulavam a coordenação e a parte espacial. Mas, com o avanço da tecnologia, as brincadeiras e os jogos em grupo, corporais, nos espaços públicos perderam espaço e as crianças ficam só com os dedões para usar o celular”, brinca a educadora.


Com as aulas no coral, as crianças melhoram a comunicação e a articulação de palavras, além de ampliar o vocabulário. Silmara conta que, ao aprender a cantar o hino nacional brasileiro, os alunos depararam com palavras que nunca tinham ouvido antes e perguntavam seus significados aos professores. Eles também conhecem estilos musicais variados e já cantaram canções em inglês, francês, hebraico e até latim, cujas letras são traduzidas durante as aulas. O repertório eclético incluiu, nos últimos anos, trechos da ópera La Bohème, do compositor italiano Giacomo Puccini, a canção sul-africana “Siyahamba”, que se tornou um hino da luta contra o apartheid, e o sucesso “Happy”, do rapper norte-americano Pharrell Williams. Para interpretar as canções do musical Mamma mia!, baseado nas canções do grupo pop sueco Abba, as crianças assistiram ao filme. A escolha do repertório é democrática. Os professores apresentam algumas músicas e, em contrapartida, os alunos também dão suas sugestões, como “Viva la Vida”, do grupo inglês Coldpay.


Os conhecimentos aprendidos por meio da música são incorporados ao aprendizado. “A professora da escola perguntou para uma aluna nossa onde ficava o Brasil. E a menina respondeu que está na América do Sul, no continente americano, cercado de oceano. A professora ficou maravilhada e chamou a mãe da aluna para saber onde a garota havia aprendido o conteúdo. E a mãe respondeu que é uma das músicas que a filha canta no coral, 'Ora bolas', do grupo Palavra Cantada. É uma forma de tornar o aprendizado mais fácil e prazeroso”, afirma Silmara.


Se as aulas de música ajudam na concentração e disciplina, pois é necessário praticar as lições com o instrumento, as de canto facilitam a expressão oral e a compreensão dos textos. “Ao apresentar Adonirando, uma homenagem ao compositor paulistano de samba Adoniran Barbosa (1910-1982), reunindo trechos de músicas desse ícone da música popular brasileira, nós discutimos o conteúdo das letras com os alunos, falamos sobre o compositor e seu jeito de falar. A aula é uma construção de forma lúdica. Muitos pais nos dizem que as notas escolares dos filhos melhoraram depois que eles ingressaram no Instituto."


Acima de todos esses avanços, a música transforma a vida das crianças, acredita a regente dos corais Baccarelli. “Nós vemos a música na perspectiva da educação integral. Se os alunos não seguirem a carreira musical, eles serão pessoas melhores, com uma ampla visão de mundo. Já tivemos muitos alunos com problemas familiares e a música foi o esteio para eles seguirem adiante. Não é porque eles vivem em uma comunidade carente que não terão possibilidades de uma vida melhor. Nestes anos, percebo como a música formou e transformou tantos alunos. As crianças transmitem os conhecimentos culturais a suas famílias. Nós fizemos uma apresentação dos corais e da orquestra na Sala São Paulo, no centro da cidade, no fim do ano passado. Muitos pais nunca tinham estado ali e eles contaram a emoção de ver os filhos em um lugar tão famoso”, avalia Silmara.


O próximo passo para a feliz parceria entre música e letramento é a criação de um espaço de leitura com livros de literatura brasileira e estrangeira. “Hoje temos um espaço com jogos pedagógicos e brinquedos, com monitoras para entreter as crianças antes das aulas. Sonhamos com um espaço de leitura para que as crianças e seus pais tenham mais contato com livros”, diz Silmara. Se o Instituto Baccarelli continuar realizando sonhos, a ideia da biblioteca tem grandes chances de se tornar realidade.

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