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EM REVISTAREPORTAGENS — BIBLIOTECA LOCALIZADA EM CEMITÉRIO PROMOVE SARAU DO TERROR...

Biblioteca localizada em cemitério promove Sarau do Terror


Mônica Cardoso


Já imaginou um sarau em um cemitério? Essa é a proposta do Sarau do Terror, que ocorrerá na Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura, no dia 12 de novembro. E não poderia ser mais oportuno, já que a biblioteca está localizada no Cemitério da Colônia, o mais antigo de São Paulo, fundado em 1829 por imigrantes alemães no distrito de Parelheiros, extremo sul da cidade.


O tema da 6ª edição do evento é o medo. “A ideia é falar sobre o medo da morte em uma visão mais ampla, abordando questões como o genocídio da população negra periférica e a violência contra a mulher”, diz Sidineia Aparecida Chagas, articuladora, gestora e mediadora de leitura da biblioteca.


O evento terá diversas atividades de arrepiar, como contação de histórias, apresentações de poesia, dança e teatro – todas gratuitas –, além de um passeio noturno pelo cemitério.


De acordo com Sidinéia, o Sarau do Terror tem como finalidade falar sobre literatura de uma maneira divertida para atrair a atenção dos jovens. Para tanto, a biblioteca promove diversos eventos durante o ano – como encontros com autores, clubes de leitura, saraus e cinedebates – voltados para crianças, jovens e adultos. 


O padrinho da biblioteca é o escritor Luiz Ruffato, mas outros autores já participaram de eventos no local, como as escritoras Mel Duarte, Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves – representantes da literatura periférica –, e a filósofa Marcia Tiburi, que participou de um debate sobre feminismo. “Nossa ideia é aproximar os autores dos leitores, incentivando a escrita e a formação novos escritores”, diz Sidineia.


Além das atividades culturais, a biblioteca também desenvolve projetos como o Sementeira de Direitos, cujo objetivo é retratar livros que abordam a violência contra a mulher e promover debates sobre o tema. Já no projeto Mãos de Livros, as publicações são penduradas em árvores, ao alcance das crianças, que podem emprestá-los. “Todos os dias, as crianças me perguntam se eu vou colocar livros nas árvores. Eu percebo esse interesse crescente pela leitura. Como mediadora de leitura, sei como é importante o primeiro passo para incentivar uma pessoa a gostar de ler. Não adianta eu dar um livro para alguém e dizer ‘Leia!’. A escola obriga os alunos a ler um livro e depois fazer uma redação. Isso não traz prazer na leitura. É preciso ter estratégias para aproximar as pessoas dos livros.”


Poder de transformação
Sidineia conhece de perto o poder transformador dos livros. “Não tive incentivo de leitura pelos meus pais, que eram analfabetos. Minha mãe criou sozinha os dez filhos e, mesmo não sabendo ler, ela nos incentivava a ir para a escola porque sabia que era importante. Meu primeiro contato com a leitura foi na escola, mas era sempre para fazer um trabalho valendo nota, o que não era prazeroso”, conta.


A mudança de rota veio quando Sidineia cursava o Ensino Médio e sua escola distribuiu caixas contendo quatro livros para os alunos. “Quando li O menino do pijama listrado, me apaixonei pela história do menino que sofreu em um campo de concentração. Já no Brasil, tivemos o sofrimento causado pelo processo de escravidão. A emoção é universal e todos temos direito à liberdade.” A partir de então, ela começou a buscar outros livros para ler.


Foi nessa época que Sidneia teve que mudar de bairro, de Interlagos para Parelheiros, por conta do envolvimento de um familiar com o tráfico de drogas. Na Escola Estadual Renata Menezes dos Santos, um projeto do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac) propunha a criação de uma biblioteca comunitária. “Dos 25 jovens que iniciaram o projeto, eu sou a única que permanece. Muitos se afastaram por drogas ou por gravidez na adolescência”, conta a educadora, que, além de trabalhar na biblioteca, também é mediadora de leitura em creches, escolas e unidades básicas de saúde. 


O projeto floresceu e se tornou a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura, que há sete anos está localizado no Cemitério da Colônia. Suas duas salas pequenas abrigam o acervo com cerca de 4 mil exemplares, a maioria vinda de doações. O espaço é um oásis em uma região carente de opções de lazer.


“Temos o CEU Parelheiros e bailes funk, mas não temos cinema nem teatro. Nossa biblioteca promove várias atividades culturais e desmistifica a ideia de que a biblioteca precisa ser um local de silêncio absoluto. Não há limites para a leitura, que pode ocupar todos os espaços. Temos orgulho que a nossa biblioteca está localizada no cemitério. Para muitas pessoas, este espaço pode representar o fim da vida, mas, para nós, é o recomeço dela”, afirma Sidineia.


Clique aqui para acessar o evento do Sarau do Terror no Facebook e aqui para acessar a página da Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura na rede social.


 

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COMENTÁRIO(S)
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MARIA DE LOURDES BARBOSA LIMAMARIA DE LOURDES BARBOSA LIMA disse em 22/11/2016 16h02
Depois da leitura do livro "Pin" do escritor Aléssio, fizemos uma visita com os alunos do Colégio São Paulo de BH- Irmãs Angélicas, ao cemitério um dos cenários da história. Aconteceu no convento da Borda do Campo, Antônio Carlos- MG. Convento estilo gótico, situado num sítio. A visita foi à noite, com lanternas e o cemitério fica no meio da mata. Depois de visitar os túmulos parra tentar decifrar enigmas do livro, os alunos foram surpreendidos pela entrada do Homem de Branco- personagem enigmático de o livro. Entrada fantástica e fantasmagórica. Só quem participou é capaz de descrever a cena. Com certeza, essa foi uma grande e inusitada experiência para os alunos do sexto ano da escola. Foi incrível!
ELIETEELIETE disse em 10/11/2016 22h46
amei o sarau no cemitério.....que vontadeeeeee..... agora,gente,li o livro O menino do pijama listrado....emocionante.....até vi o filme depois....
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