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EM REVISTAREPORTAGENS — PROBLEMAS E MIL E UMA SOLUÇÕES...

Problemas e mil e uma soluções

Mônica Cardoso


Quando criança, Silvia Colello sentia um descompasso entre pensar e escrever. A mão nem sempre acompanhava seu raciocínio rápido. Faltavam letras nas palavras escritas no caderno. Por conta disso, enquanto os outros alunos saíam em algazarra para o recreio, ela permanecia na sala de aula copiando a lição da lousa. “Eu lia demais, mas não conseguia escrever. A leitora desesperada era uma péssima escritora. Eu era uma aluna esforçada e fui até oradora da classe porque decorava o discurso. Mas escrever era muito difícil para mim”.


Aos 10 anos de idade, percebendo que a garota repetiria de ano, seus pais foram chamados na escola para uma conversa. Silvia foi encaminhada para uma psicopedagoga que detectou a causa do problema e realizou um treinamento para sintonizar o ritmo do pensamento com o da escrita. “A psicopedagoga me colocava para escrever batendo um tamborzinho porque era um problema de natureza motora e não de caráter cognitivo. Meu problema foi resolvido em um ano. Se não tivesse essa intervenção, teria arrastado esse problema pela vida inteira. Tive sorte de ser encaminhada para uma especialista que detectou meu problema. Mas quantas crianças não tiveram a mesma sorte?”, relata Silvia.


Essa história veio à tona enquanto escrevia o memorial para sua tese de livre-docência A escola e as condições de produção textual: conteúdos, formas e relações, defendida na Universidade de São Paulo (USP) no ano passado. “O memorial é um balanço da vida profissional e pessoal. Fui investigar de onde vinha meu interesse por criança com dificuldades em aprende a ler e escrever. Eu me lembrava da minha dificuldade em escrever, mas nunca a associei ao meu trabalho. Então quando uma criança me diz ‘Professora, muito obrigada, eu não tenho mais vergonha em ir para a escola’ é muito forte para mim porque eu tinha vergonha em ir para a escola”, conta a especialista.


Sua trajetória está entrelaçada à educação. Após se formar em Pedagogia na USP, ela fez um curso de especialização em psicomotricidade e atendeu muitas crianças com problemas semelhantes ao seu. Fez mestrado e doutorado na mesma instituição, onde atua como professora há 34 anos. Escrita e vida escolar também estão associadas em sua tese, cuja proposta é repensar conteúdos, formas e relações na escola, mais especificamente pelo recorte do ensino da língua escrita, levando em conta a necessidade de construir uma escola inclusiva, ajustada aos perfis dos alunos e aos apelos da sociedade democrática e tecnológica.


A pesquisa de campo foi realizada na ONG Instituto André Franco Vive, em São Paulo (SP), com 30 crianças de 6 a 10 anos que estudam em diversas escolas públicas (10 do 1º ano, 10 do 3º ano e 10 do 5º ano do Ensino Fundamental). Silvia ofereceu cinco atividades para as crianças escreverem sobre a vida escolar, variando no suporte (papel ou computador) e nas autorias (sozinhos ou em duplas, trios ou quartetos).


A primeira atividade foi um questionário em que as crianças responderam individualmente a duas perguntas sobre a escola: “Por que as pessoas vão para a escola?” e “Por que as pessoas aprendem a ler e escrever?”.


Já na segunda atividade, para provocar o debate entre as crianças, Silvia criou uma situação hipotética. Ela contou que seu vizinho, que tinha a idade deles, não queria ir à escola. Ela perguntou então se poderiam escrever algo para ele. “Eu não falei para escrever uma carta nem um bilhete e recebi respostas bastante inusitadas. Uma criança escreveu uma lista: piscina de bolinhas, patinete e ioiô eram motivos para ir à escola. Perguntei se na escola dela havia tudo aquilo e ela respondeu que não, mas até que o vizinho percebesse isso, ele já teria ido para a escola”, conta. “Essa atividade gerou mais adesão e comprometimento do que a primeira. João Wanderley Geraldi diz que a escrita gera comprometimento com o outro e que a pessoa se encanta tanto mais com a escrita quanto percebe que pode mudar situações e o mundo em que vive”.


Para a terceira atividade, Silvia propôs a criação de um blog. Para incentivar a turma, ela contou o caso de Isadora Faber, uma aluna de 13 anos que criou a página “Diário de classe” no Facebook para mostrar as condições de sua escola em Florianópolis (SC). “Mostrei que quem saber escrever pode conversar com o mundo. Percebi que eles tinham um vínculo muito frágil com a escola, apesar de frequentá-la diariamente. Todos apresentaram os mesmos discursos extremamente empobrecidos: a escola é suja, tem criança que bate, a professora grita, a comida é ruim. Porém, na hora de escrever, já começavam a pensar e me perguntavam se a palavra ‘sujo’ era escrita com s ou com ch”.


Para a quarta atividade, Silvia criou um game com diversos problemas relativos à vida escolar com o objetivo de provocar reflexão. Algumas universidades já desenvolvem experiências centradas na resolução de problemas, como a Universidade Estadual de Londrina (UEL) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) no Brasil, e a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. “No curso de Medicina da Universidade de Londrina, os professores de diversas disciplinas criam problemas visando a determinado conteúdo. Por exemplo, eles propõem o caso da dona Maria, que é diabética, tem pressão alta e está sofrendo um processo de aborto. Com algumas indicações dos professores, os alunos têm um prazo para pesquisar. É um saber interdisciplinar, integrando vários assuntos, que coloca o aluno para pensar porque envolve um desafio com um significado. Eu pensei como poderia fazer o mesmo com as crianças”.

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COMENTÁRIO(S)
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MARIAMARIA disse em 02/08/2016 12h49
Bem interessante a pesquisa da professora. Fiquei com vontade de saber mais e ter acesso aos jogos. Parabéns!
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