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EM REVISTAREPORTAGENS — COMO ABORDAR A APRENDIZAGEM DA LÍNGUA ESCRITA NA EDUCAÇÃO INFANTIL?...

Como abordar a aprendizagem da língua escrita na Educação Infantil?


Aprender brincando
Em várias instituições e entre alguns educadores, o brincar ainda é colocado em segundo plano e visto como algo de menor importância, como se nada acrescentasse ao aprendizado. Entretanto, é por meio das brincadeiras que a criança descobre a si própria, os outros e o mundo ao seu redor, além de desenvolver a criatividade, a expressividade e as múltiplas linguagens além da escrita: os gestos, as expressões faciais, a manipulação de objetos e materiais, o desenho, a dança, a música etc. Dessa forma, especialmente na Educação Infantil, as práticas pedagógicas devem possibilitar a organização de espaços, tempos e situações para o brincar, assim como a disponibilização de artefatos, acervos e objetos, criando maneiras lúdicas que proporcionem a vivência plena da infância e estimulem a aprendizagem.


“Embora o movimento do brincar tenha adquirido dimensões importantíssimas nos últimos 30 anos, por meio de estudos e pesquisas, inclusive das neurociências, que comprovaram a sua fundamental importância para o desenvolvimento saudável da criança e para o estímulo a diversas aprendizagens, este brincar ainda é visto como ‘acessório’. O brincar desvela a criança no seu temperamento, na sua essência, nas suas preferências, interesses, necessidades e dificuldades. Brincando, pintando, experimentando, movimentando-se, cantando ou tocando instrumentos, imitando, balbuciando, criando diversas narrativas, a criança se expressa, se mostra, confronta desafios e descobre o mundo e a si própria. Esses canais e essas linguagens expressivas são importantes e potencializam possibilidades de desenvolvimento integral da criança, como corpo, cognição, emoções, socialização, valores e aquisição da linguagem falada, escrita e artística”, afirma Adriana Friedmann, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento (Nepsid) e professora na área de Antropologia da Infância e Pesquisas com Crianças do Instituto Singularidades, em São Paulo (SP).


O brincar e a participação em situações nas quais a escrita é central para a interação e para o alcance de um propósito partilhado são atividades fundamentais tanto na Educação Infantil como no ciclo de alfabetização. “Esse processo que é, e deve continuar a ser, na Educação Infantil, fundamentalmente lúdico para a criança. Ela participa com interesse de jogos e brincadeiras que envolvem a língua escrita e que, para o professor, têm finalidade pedagógica. Lúdico não é apenas correr, brincar de casinha, jogar bola, ouvir histórias: lúdico é tudo aquilo que dá prazer à criança. Quando o professor a instiga com perguntas provocadoras que a ajudam a refletir sobre hipóteses que ela faz a respeito dos usos da escrita e da representação da fala pela escrita, a criança fica tão interessada e curiosa para procurar respostas, que isso é lúdico: lúdica é toda atividade que responde a interesses e satisfaz curiosidades”, afirma Magda Soares.


“Por meio de jogos de faz de conta, brincadeiras e jogos estruturados envolvendo práticas letradas, as crianças se posicionam e desempenham papéis sociais, apropriando-se criativamente deles e enriquecendo modelos e referências advindas de sujeitos mais experientes. Ter a palavra escrita como brinquedo, brincar de ler e escrever e de desempenhar papéis e comportamentos de usuários da escrita geram repercussões na infância. São situações nas quais podem brincar de ler e de escrever: oralizam e compreendem os textos, acionam conhecimentos de mundo para relacioná-los aos temas da leitura e de outros textos e discursos, lidam com suportes e tecnologias da escrita (livros, revistas, telas, papéis, canetas, teclados), criam réplicas, dialogam com os discursos com os quais se deparam, buscam interagir por meio da escrita. Nesses eventos de brincadeira e letramento, experimentam não só papéis, mas percebem e constroem para si as funções sociais da escrita”, exemplifica Claudia Vóvio.


Letramento lúdico e formação da identidade
Observando seus alunos e conhecendo a bagagem multicultural deles, o professor pode estimular o aprendizado de maneira lúdica, criando propostas adequadas a cada faixa etária. “O modo mais significativo pelo qual a criança aprende é pela brincadeira. Contudo, na nossa cultura escolar ela é vista como algo antagônico ao saber, tanto é que o professor diz ‘chega de brincadeira e vamos aprender’. É possível propor brincadeiras divertidas, como jogos de rimas, trabalhar com rodas de histórias, desenhar uma história ou música conhecida, fazer uma peça de teatro...”, afirma Silvia Colello.


Segundo a professora da USP, o letramento deve estar conectado com a realidade das crianças de forma provocativa, promovendo experiências lúdicas de leitura e escrita significativas. Por exemplo, o educador pode fazer uma lista de histórias a serem lidas, buscando ofertar temas e origens variadas, e atentando para que a leitura ganhe função social. Outra ideia interessante é propor a escrita coletiva de um convite para uma comemoração da escola, como a festa do Dia das Mães.


“Para a criança é muito importante escrever seu próprio nome porque é uma questão de identidade. O professor pode fazer uma lista de presença na sala de aula com uma foto ao lado de cada nome, onde as crianças marcam um X diariamente. Com o tempo, ele retira o apoio da foto. Ao mesmo tempo que identificam seu próprio nome, as crianças começam a discriminar os nomes dos colegas. Isso pode gerar uma discussão do tipo ‘por que os nomes da maioria das meninas terminam com a letra a enquanto os nomes da maior parte dos meninos acabam com o?’”, acrescenta Silvia.


É importante que a criança construa a função social da escrita e da leitura, percebendo sua presença e importância em situações reais. “O professor pode preparar o espaço para trazer os jogos e as brincadeiras de forma simbólica. Um canto da sala de aula pode ser a cozinha. A cozinha precisa ter o livro de receitas e os bilhetes na geladeira. O professor observa a brincadeira e propõe desafios, como fazer a lista de compras. Com isso, é necessário criar o espaço do supermercado com as prateleiras de produtos com etiquetas. Nesse caso, é um contato natural com a função da linguagem dentro do enredo da brincadeira”, explica Sônia Madi, coordenadora do projeto Alfaletrar, em desenvolvimento pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) e parceiros.


“Se na sala de aula há alunos que vêm de diferentes lugares, o professor pode chamar a atenção para os diversos sotaques. Com isso, ele apura a escuta das crianças e desenvolve a consciência fonológica. Já ao brincar de boliche, a proposta é lidar com o conhecimento matemático: o número de pinos e a lista com os nomes das crianças e os pontos de cada uma nas rodadas do jogo”, afirma a educadora.


Situações que explicitam a função social da escrita fazem parte da proposta pedagógica da Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Guia Lopes, em São Paulo (SP). “O encantamento, a fantasia e a imaginação estão presentes nas nossas propostas e provocações didáticas. Não definimos uma lista de conteúdos a ser trabalhados, mas atitudes que façam parte da vida de nossas crianças, como o interesse em aprender a escrever. Criamos figuras de afeto com as quais só é possível ter contato por meio de cartas e que só ganham vida durante a noite, quando não há mais ninguém na escola. Os vínculos estabelecidos com esses bonecos fazem brotar cartas diárias, ditadas pelas crianças tendo o professor como escriba, tal a necessidade e a urgência de estabelecer essa conexão. Em uma cultura letrada, a escola não pode omitir-se da constatação de que a cidadania só pode ser vivida com o domínio de alguns conhecimentos, como a escrita e a leitura”, argumenta a diretora Cibele Racy.


A escola também cria situações em que o registro escrito é usado para guardar na memória os bons momentos durante as aulas. O objetivo é que, com o auxílio dos professores, as crianças escrevam sobre algo que lhes foi significativo. Com isso, elas se sentem à vontade para escrever, vencendo o medo de errar e superando a justificativa de não saber fazer, que imobiliza a criatividade e o prazer de se expressar e se comunicar.


O aprendizado ocorre por meio das brincadeiras e interações nos diferentes espaços como o parque, a sala de leitura, a brinquedoteca, a horta, a cozinha experimental e o espaço de arte. “Hoje é impossível pensar na educação como áreas fragmentadas do conhecimento e desenvolvimento humano. É dessa forma que compreendemos o brincar. A brincadeira não deve ser considerada uma linguagem apartada das provocações que planejamos para as crianças em todos os momentos da nossa convivência. É por meio das concepções que temos sobre o brincar que construímos nossas propostas de trabalho com a alfabetização. Pensar a educação fora de quatro paredes, entre o que pode e o que não pode, é um dos nossos desafios”, complementa a diretora.

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COMENTÁRIO(S)
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OLINDAOLINDA disse em 16/06/2016 23h02
A pedagogia do amor se faz presente nas formas; de introduzir o afeto através de pequenos gestos,faça um circulo com os animais de pelúcia da criança,ofereça por exemplo uma fruta peça para a criança descascar,peça para criança contar quantos gomos a mixirica tem? Trabalharemos a linguagem oral e a matemática de forma lúdica e simples,explorando o seu universo,fazendo com que a criança tenha uma memória fotográfica de sua fase.etc...
ILANA FLAVIA ALMEIDA SILVA DE JESUSILANA FLAVIA ALMEIDA SILVA DE JESUS disse em 02/06/2016 17h20
Amei ler esses 3primeiros matériais.Muito enrequecedor para a formação docente. Será e já está sendo de suma importância o BNCC para os educadores e para educação. Fico cada dia mais contagiada e fascinada por ser uma educadora.Um papel tão importante que devemos nos dar conta a cada momento tentando e fazendo sempre o melhor para os nossos alunos serem o futuro deste mundo.
ILANA FLAVIA ALMEIDA SILVA DE JESUSILANA FLAVIA ALMEIDA SILVA DE JESUS disse em 02/06/2016 17h05
A educação deve sim ter esse olhar promissor de querer sempre ir além. Pois o lúdico, a saída das quartro paredes da sala de aula é de fundamental importância. O levar o faz de conta também pra dentro da sala de aula vai proporcionando ao seu aluno a ir sempre além. Buscando inovações sempre, acreditando que aprender brincando é possível sempre. E que nós como educadores temos a responsabilidade de fazer acontecer .
ILANA FLAVIA ALMEIDA SILVA DE JESUSILANA FLAVIA ALMEIDA SILVA DE JESUS disse em 02/06/2016 16h47
O processo ensino aprendizagem.Vem desde de cedo. Creio nesta teoria tb, pois se dou está oportunidade e tenho este desejo de ver o meu aulo crescer.Posso e devo fazer com que ele tenha assecessoao letramento.Mesmo sendo na educação infantil. aprender brincando sempre.
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