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EM REVISTAENTREVISTAS — MARLA DE QUEIRÓZ: “NÃO É PRECISO TEMER O ABANDONO DE UM POEMA”...

Marla de Queiróz: “Não é preciso temer o abandono de um poema”

Marla de Queiróz é jornalista, revisora, escritora e poeta. Natural de Brasília (DF), onde passou a infância e adolescência, e iniciou o curso de Filosofia, formou-se em jornalismo no Rio de Janeiro, cidade em que vive atualmente. Ávida leitora desde muito jovem, sua escrita floresceu por meio das novas redes sociais, especialmente o blog e o Facebook. Além desses meios, a autora participa de saraus, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Marla publicou Flores de dentro (Rio de Janeiro: Multifoco) e Quando as palavras se abraçam (São Paulo: Patuá, 2013), composto por poemas e textos em prosa poética.

Em sua escrita, a poesia brota da vivência cotidiana, em uma linguagem marcada ao mesmo tempo por uma busca de simplicidade e densas reflexões, sentimentos e percepções sobre si mesma, os encontros e desencontros, o corpo, as palavras, as alegrias e dores humanas. Na entrevista à Plataforma do Letramento, esta “marlabarista de palavras” fala, entre outros temas, sobre seu trajeto de formação como leitora, seus autores preferidos, a leitura e a escrita na era digital, o papel da escola na formação de leitores e autores, e uma de suas paixões, a poesia.

Plataforma do Letramento: Como você começou a se interessar por literatura e, especialmente, por poesia? Quem foram suas primeiras influências nesse caminho: família, escola, amigos...?
Marla de Queiroz: Eu comecei a me interessar com 11, 12 anos. Não me lembro exatamente o que despertou esse olhar. Lembro que eu era uma das poucas alunas que gostavam de ler os livros exigidos pelos professores para aplicar provas. Eu lia e fazia dois resumos: um para mim e outro para uma amiga que não gostava de ler. Em troca, ela comprava o livro e me dava, pois eu não tinha condições financeiras. Além disso, minha fome por literatura foi crescendo, pois eu me sentia muito inadequada no mundo e encontrava nas páginas de qualquer história um lugar de pertencimento. Eu tinha uma sensação de inadequação muito grande que me causava uma angústia profunda. Fui uma criança e uma adolescente angustiadas, perseguidas por esta sensação. O meu oásis foi a descoberta do Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. A partir deles, e depois de ler toda a obra dos dois, comecei a explorar o que havia neste Universo. E não parei mais.

PL: Como a formação leitora influiu na sua escrita?
MQ: Eu não sabia que seria uma escritora apesar de escrever diários desde a minha alfabetização. Eu registrava minhas sensações e anotava todos os meus sonhos. Acho que eu vivia em busca de algum sinal que não sei qual era. Eu achava fascinante demais alguém conseguir escrever um livro inteiro! Mas me achava absolutamente incapaz. Isso era motivo de horas de divagação. No entanto, a minha avidez por literatura (aos 16 anos eu já tinha lido os grandes clássicos e, durante uma fase da minha vida, eu passava o fim de semana disputando comigo mesma: cheguei a ler de dois a três livros POR DIA) aprimorou demais a minha escrita. Eu aprendi a descrever, por meio de metáforas, cenas corriqueiras. Eu aprendi a elaborar situações banais e a tentar me aproximar, pela palavra, de sensações fugidias demais. Isso foi um grande exercício: observar como os consagrados faziam e tentar encontrar a minha forma de dizer essas coisas todas que conviviam comigo, mas que eram muito abstratas para compartilhar com as amigas da minha idade. O fato, é que eu cresci numa casa sem livros. Então, me associava às bibliotecas públicas e, por meio delas, li toda a obra da Clarice Lispector, por exemplo, Machado de Assis etc. Além de pegar livros emprestados das bibliotecas dos pais dos meus amigos.

PL: Que obras e autores mais a influenciaram?
MQ: São muitos, muitos mesmo. Em cada fase da minha vida tive influências específicas. Sendo muito concisa, poderia dizer que da pré-adolescência à adolescência, convivi intensamente com Fernando Pessoa, Milan Kundera, Herman Hesse, Dostoievski, Clarice Lispector (Água Viva me deixou boquiaberta e até hoje não me recuperei... risos), li Paulo Coelho também (toda a obra dele: era fluido, leve), Machado de Assis, Aluísio Azevedo, entre outros. Na mesma época, comecei a entrar no Universo dos livros de Filosofia: Platão, Aristóteles... Já na fase adulta, eu tenho um amor absurdo por Mia Couto, Ana Cristina Cesar, Anaïs Nin, Paulo Leminski, Caio Fernando Abreu, Hilda Hilst, Adélia Prado, Clarice Lispector (sempre), Gaston Bachelard, Sartre, Albert Camus, Manoel de Barros... Mas o meu Mestre dos Mestres é João Guimarães Rosa com seu Grande Sertão: Veredas, só pra começar e, depois, todas as suas obras: Corpo de Baile, Primeiras, Outras, e TODAS as Estórias etc. (risos)

PL: Em comparação com épocas anteriores, em que a cultura escrita estava vinculada principalmente ao objeto livro, você percebe grandes diferenças na leitura, escrita e na relação autor-leitor e outros autores, no contexto atual? Quais?
MQ: Percebo. Vejo, antes de tudo, o empobrecimento da linguagem com suas abreviações. Mas percebo também um lado muito positivo: autores contemporâneos expondo seus talentos através de blogs e outras redes sociais e sendo lidos por todas as faixas etárias. Recebo e-mails de gente que diz que nunca gostou de poesia e que aprendeu a amar. Isso é maravilhoso. No mais, o que está na internet não carrega a imposição de ser lido. As pessoas elegem seus autores e, a partir das influências de quem gostam, acabam se embrenhando no Universo-livro dos Consagrados. Caio Fernando Abreu, por exemplo, sempre esteve aí! É contemporâneo, morreu há pouco. Mas as pessoas o descobriram agora. E virou uma verdadeira febre. Acho que ele e Clarice são os queridinhos da internet.

PL: Você se considera uma escritora da “geração blogger”? As novas tecnologias digitais e as redes sociais influenciam em sua escrita? Como?
MQ: Sim. Sou desta nova geração. Fui descoberta através dela. Aprendi a compartilhar e a me expor através do meu blog. E tive todas as influências possíveis que uma situação como esta carrega. Por exemplo, uma produção maior de textos: as pessoas têm muita pressa por um novo post. Também percebo que, mesmo tendo conhecido a erudição da linguagem, eu nunca quis escrever poesia para poetas. Eu queria encontrar o ápice da simplicidade, sem perder a densidade do conteúdo, para que os meus textos fossem acessíveis a quaisquer pessoas, de qualquer classe social ou grau de instrução.




PL: O que acha da opinião corrente de que o jovem atual não gosta de ler e escrever?
MQ: Não se pode generalizar. Tenho a impressão de que temos muita resistência ao desconhecido. Todas as vezes que tive a oportunidade de incentivar a escrita de alguém, desabotoar suas palavras sem que tivessem medo do prejulgamento (como exercício inicialmente) e depois escrever com mais elaboração a partir das sinalizações do que era apenas jorro, isso se tornou uma paixão e um hábito. O que falta, eu sinto, é incentivo e um convite mais sedutor para desbravar este caminho, que é solitário, assustador e delicioso.

PL: Clarice Lispector, em sua derradeira obra, Um sopro de vida, afirmou: "Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida”. E para você, qual é o sentido de escrever? O que a leva a essa aventura pela palavra?
MQ: Eu escrevo para respirar. Para crescer para mim. Para organizar o estado bruto dos meus sentimentos e conseguir me tornar espectadora dos meus medos, fantasmas, projeções. A escrita aprimora a pessoa transitória que sou. Por isso, um texto nunca será igual a outro: assim como nunca serei a mesma pessoa depois de escrevê-lo.

PL: Em sua opinião, como a educação e, especialmente, a escola podem propiciar experiências ricas, abertas e significativas de iniciação das crianças e jovens no mundo da leitura e da escrita?
MQ: De maneira lúdica. O lirismo é lúdico, mesmo quando angustiado. É preciso usar de todos os elementos possíveis para se chegar à palavra com honestidade. Por exemplo: descrever uma fotografia depois de tirá-la. Observar o que está ao redor e dar “esta paisagem” de presente a alguém. Não é preciso ir diretamente à palavra para esta aproximação da escrita. Qualquer manifestação artística pode desencadear isto: filmes, livros, dança. Sempre observei como os dançarinos escrevem bem. Como os fotógrafos também conseguem metáforas nunca antes pensadas. Acho que o mundo é uma metáfora. Ou a busca de uma metáfora, talvez, irrealizável. Por isso essa busca se torna cada vez mais incessante e apaixonada.

PL: A escritora e jornalista Eliane Brum, em entrevista concedida à Plataforma do Letramento, entende a narrativa como uma forma de cada um dar sentido à vida e afirma: “Nossa vida é nossa primeira ficção”. E a respeito da poesia, um gênero considerado “difícil” por muitas pessoas: você vê relação entre esta e a vida? Dá para resumir, em algumas palavras, o que é poesia para você?
MQ: Tentar resumir o que é poesia, para mim, é igual enfiar o Universo dentro de uma gaiola... Não sei fazer isso. Mas o que posso dizer é que poesia “não é difícil”, ela simplesmente toca, se comunica com o leitor ou não. Para isto: vários gêneros, estilos e poetas. Não é preciso temer o abandono de um poema, assim como de um filme, etc. Às vezes a experiência é desconfortável apenas. A palavra “difícil” talvez esteja sendo usada aqui para substituir “desencadeadora de reflexões”. Na literatura, num romance, por exemplo, pode-se demorar capítulos inteiros numa cena. A poesia é o poder de síntese. Difícil é encontrar este poder e escrevê-lo.


Conheça mais da escrita de Marla de Queiroz em seu blog: TransFLORmar-la.
Acesse aqui.

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COMENTÁRIO(S)
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MARIA JOSÉMARIA JOSÉ disse em 07/10/2015 13h15
A poesia faz parte de nós, ela está por toda parte e não apenas nas palavras. Cabe a cada ter a sensibilidade para captá-la pelos caminhos por onde anda. É essa sensibilidade do olhar e do sentir que a escola deve trabalhar para mexer com o imaginário da criança e do jovem para que eles se permitam tocar pela poesia. Aí deve entrar em cena um trabalho voltado para o gênero poema. Este é um excelente espaço para acordar nossos professores, pois se eles não forem exemplos de gosto, fica complicado acordar os alunos.
AUGUSTO PETRONIOAUGUSTO PETRONIO disse em 20/03/2014 20h27
A poesia é um gênero textual que permeia a vida de qualquer ser humano e contribui, na escola, para o desenvolvimento da dimensão imaginativa e cognitiva dos nossos jovens. Infelizmente ela tá muito esquecida nas nossas instituições...
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