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EM REVISTAENTREVISTAS — CACÁ LOPES: O PAPEL DA CULTURA POPULAR...

Cacá Lopes: o papel da cultura popular


Cantor, compositor, violonista, cordelista e educador social. Essas são as atribuições de Cacá Lopes, pernambucano do município de Araripina. O artista destaca-se pelo uso do cordel e da música popular nas escolas e em espaços públicos. Nesta entrevista, Cacá fala sobre sua formação, suas influências e sobre este gênero literário que faz parte da identidade cultural brasileira: o cordel.


Plataforma do Letramento - O cordel é um gênero literário que retrata a cultura popular brasileira. Como foi o seu primeiro contato com o cordel?
Cacá Lopes - O encanto do cordel chegou até a minha alma por meio do meu pai, Elpidio Lopes Frazão, que na época sempre trazia em seu matulão [saco onde se carregam pertences] de feira alguns folhetos, também chamados de romances ou versos. Ao retornar de Araripina para o nosso sítio, Lagoa da Onça, ele lia para seus seis filhos, no avarandado da nossa casa, muitos cordéis, que com o passar do tempo tornaram-se muito populares.


PL- Em seu site, você homenageia Luiz Gonzaga, figura inesquecível da música popular brasileira. Mas, além de ouvir a boa música de Luiz, você certamente lia cordéis quando criança. Há algum, em particular, de que você se recorda? Se sim, poderia reproduzi-lo?
CL - Na música, Luiz Gonzaga sempre foi uma grande referência. Cresci ouvindo suas canções. E no ano do centenário de nascimento de Gonzaga [em 2012], prestei também minha homenagem a esse mestre de Exu, com o lançamento do livro Vida e Obra de Gonzagão em Cordel, pela editora Ensinamento. Ainda sobre o cordel, ao remexer nos guardados da minha infância, as lembranças que me chegam são de três títulos que se tornaram clássicos da lira popular. São eles: A Chegada de Lampião no Inferno, de José Pacheco; A História de Mariquinha e José de Souza Leão, de João Ferreira Lima; e a Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum, de Firmino Teixeira do Amaral. Eu lia esses e outros títulos adquiridos nas feiras do sertão; alguns versos ficaram grudados na minha mente até hoje. Eis uma estrofe da chegada de Lampião no Inferno:


Um cabra de Lampião
Por nome Pilão Deitado,
Que morreu numa trincheira
Em certo tempo passado,
Agora pelo sertão
Anda correndo visão
Fazendo mal-assombrado.


PL - As histórias dos cordéis e os causos do interior de São Paulo têm aspectos em comum? O que aproxima ambos?
CL - O cordel é uma história rimada. É o romanceiro do povo do sertão. Os causos da roça também têm essa característica. Na minha opinião, eles têm muita coisa em comum, e o que aproxima os dois é a maneira como são apresentados, geralmente em alpendres, varandas, ruas e praças, sem falar da riqueza e da simplicidade de seus personagens.


PL - Na sua obra, você utiliza trava-línguas e ditados populares. Por qual motivo decidiu agregá-las? E o público, como reage a essas justaposições?
CL - Aprendi meu primeiro trava-língua aos sete ou oito anos de idade. Gostei da brincadeira. Em relação aos ditados populares, tenho grande paixão e até tornei-me colecionador. Tenho catalogado, em ordem alfabética, cerca de 10 mil, que, aos poucos, vou publicando e divulgando no meu projeto Cordel nas Escolas. Nas minhas apresentações, em pátios e bibliotecas, percebo a facilidade de interagir com as crianças e os adolescentes. Trava-língua é uma brincadeira divertida, assim como o próprio universo infantil; por isso tem tanta aceitação.


PL - Como é o seu processo criativo na elaboração dos versos de cordel? 
CL - Primeiro, eu escolho um tema; depois, elaboro o conteúdo. Devido à riqueza das rimas, alguns cordéis tornam-se canções. Além de mim, outros poetas cordelistas utilizam a música em suas apresentações.


PL - O público adulto se interessa por cordel? 
CL - O cordel é abrangente; comunica-se com inúmeros públicos. Os adultos também gostam desta fantástica manifestação cultural, talvez porque o cordel tem um pé no interior, no sertão, e, por meio dessas histórias, levam as pessoas adultas a uma viagem às suas origens.


PL - Elaborar um cordel é simples? 
CL - Rimar é fácil; porém fazer um cordel completo é muito trabalhoso. É preciso muito cuidado com o tratamento dado à poesia popular; observo, na internet, muitos textos desmetrificados e sem nexo. Há muita confusão no que se refere ao cordel e à poesia matuta.



PL - O que você diria para nossos leitores sobre a leitura de cordel?
CL - Que continuem lendo cordel; se possível, em voz alta. Leiam um título mais de uma vez, sozinhos ou em grupo. O cordel vive um ótimo momento, chegou às escolas, e a prova disso é a quantidade de obras lançadas; são releituras fantásticas da literatura brasileira e universal em forma de livros ilustrados, adaptados por alguns dos maiores nomes da poesia popular da atualidade. Essas obras ganham novo formato, despertando no leitor a vontade de conhecer ou reler o original. Ler é viajar sem sair do lugar. Boa viagem!


Para conhecer mais sobre o artista e sua obra, clique aqui.

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COMENTÁRIO(S)
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SIMONESIMONE disse em 04/10/2013 17h30
A literatura de cordel é realmente fascinante. Trazê-la para sala de aula, além de inserir os alunos neste universo da nossa cultura popular, auxilia no aprendizado, incentivando também o gosto pela leitura e escrita. Após trabalhar nas três edições da Olimpíada de Língua Portuguesa com a categoria poema, o Cordel, literatura típica da nossa região Nordeste, se tornou o nosso xodó. Entre tantos cordéis produzidos pela comunidade escolar, destaco aqui, o trabalho feito sobre a passagem de Lampião, nos arredores da nossa comunidade. Nossa! Como a nossa comunidade (José da Penha- RN) era alheia a passagem de Lampião por aqui. O Cordel tem o poder também de informar.
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