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EM REVISTAENTREVISTAS — ANTÔNIO GOMES BATISTA: 10 ANOS DE INAF - PERSPECTIVAS E VISÕES DO ALFABETISMO NO BRASIL...

Antônio Gomes Batista: 10 anos de Inaf - perspectivas e visões do alfabetismo no Brasil

O recém-lançado livro Alfabetismo e letramento no Brasil: 10 anos do Inaf, organizado por Antônio Augusto Gomes Batista, Vera Masagão Ribeiro e Ana Lúcia D’Império Lima (Autêntica Editora), reúne reflexões e análises de especialistas de diferentes áreas do conhecimento acerca do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf). Os textos traçam um panorama da evolução do alfabetismo na década, focando temas como a educação de jovens e adultos e as práticas de leitura. Entre 2001 e 2011, foram realizadas oito edições do Inaf, que reúnem uma imensa quantidade de informações sobre o nível de alfabetismo dos brasileiros de 15 a 64 anos, levando em conta variáveis como etnia, gênero, renda, escolaridade, entre outras.


O ponto de partida para a publicação foi o seminário Inaf 2001-2011: perspectivas e visões do alfabetismo no Brasil, realizado pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), a Ação Educativa e o Instituto Paulo Montenegro, em 2012.  


Na entrevista abaixo, Antônio Augusto Gomes Batista, coordenador de pesquisas do Cenpec e um dos organizadores do livro, aborda dados relevantes do Inaf, como o aumento do número de pessoas alfabetizadas, as mudanças provocadas pela tecnologia e a importância da escolarização dos pais para as práticas da leitura:


Plataforma do Letramento: O que é o alfabetismo funcional de acordo com o Inaf?
Antônio Augusto Gomes Batista:
O conceito de alfabetismo surgiu por volta dos anos 1950 para designar os níveis de habilidade daqueles que dominam a escrita e a leitura. Isso porque havia mais pessoas alfabetizadas do que analfabetas nas sociedades economicamente desenvolvidas. No nosso caso, o fenômeno do analfabetismo só se reduziu de modo mais acentuado no final do século XX e início do século XXI. A proposta do Inaf é caracterizar a sociedade em que estamos inseridos e mostrar onde é preciso investir nas práticas de leitura e escrita. Nós classificamos o alfabetismo em três níveis. No nível rudimentar, a pessoa consegue, durante a leitura, retirar informações de textos muito simples ou apenas uma informação de textos mais complexos, como de jornais e revistas. Já o nível básico ou intermediário indica o uso mais avançado de leitura e escrita e a pessoa é capaz de extrair mais de uma informação de textos mais extensos. E, no nível pleno, a pessoa pode interpretar textos mais complexos, além de fazer diferenciações entre duas informações para retirar uma terceira. O Inaf mostra que nosso país apresenta baixo nível de alfabetismo, já que a maioria da população brasileira está concentrada no nível rudimentar.


PL: Qual é a metodologia utilizada para estabelecer o Inaf?
AGB:
São utilizados dois instrumentos. Na prova, ou teste, realizado individualmente por um aplicador, o objetivo é reproduzir uma situação de leitura. O aplicador faz perguntas orais e depois oferece textos de diferentes gêneros, como anúncios e notícias de jornais, seguidos de perguntas sobre o conteúdo. Também aplica um questionário para caracterizar o entrevistado socioculturalmente e obter dados quanto às práticas sociais de leitura e escrita, o que chamamos de letramento. O Ibope faz a aplicação das avaliações com 2 mil pessoas de todas as regiões do Brasil, na faixa etária de 15 a 65 anos, ou seja, que concluíram a Educação Básica.


PL: O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) classifica como analfabeto funcional a pessoa com até três anos de estudo, enquanto o Inaf busca qualificar esse indicador ao medir habilidades. Você acredita que os dados do IBGE podem mascarar a realidade?
AGB:
Nesse caso sim, porque o IBGE utiliza apenas os dados de escolaridade, enquanto o Inaf é uma medida mais precisa, já que faz a avaliação das habilidades de leitura e escrita. No Brasil, três anos de escolaridade são insuficientes para alcançar níveis plenos de alfabetismo. De acordo com os critérios do Inaf, isso ocorre com pessoas que concluem o Ensino Médio e Superior e, mesmo assim, temos parcelas dessa população que apresentam níveis intermediários e até rudimentares de alfabetismo.


PL: O que os resultados do Inaf mostram sobre a realidade educacional brasileira na última década?
AGB:
Os dados mostram certo avanço, com aumento do número de pessoas no nível rudimentar de leitura e, portanto, diminuição do número de analfabetos. Uma pessoa alfabetizada sabe usar a leitura e a escrita. O aspecto positivo é que mais gente foi incluída no nível rudimentar de escrita e leitura ao longo da última década, enquanto o negativo é que pouca gente foi incluída nos níveis mais altos.


PL: Quais dados obtidos pelo Inaf mais chamaram a atenção?
AGB: Sabemos que a duração da escolaridade é um elemento fundamental. Os dados indicam que, quanto mais tempo a pessoa estuda, maior é o nível de alfabetismo. Outra questão é a do gênero. Enquanto os homens tendem a preferir a área de matemática, as mulheres apresentam melhor desempenho na área da linguagem. Há outras questões que pesam, como a renda e a raça ou etnia. O Brasil é um país muito desigual. Sua diversidade se transforma em desigualdade. Mas o dado mais contundente é o impacto da escolaridade dos pais.  Ao analisar as causas que determinam a frequência e a diversidade da leitura, notamos que o principal fator não é a escolarização do indivíduo, mas a escolarização de seus pais. Apesar de a escola ter um efeito equalizador, democratizando as práticas de leitura, o efeito passado da escolarização dos pais continua a atuar sobre o presente. É a transmissão de bens culturais. Pais que têm o hábito de leitura tendem a transmiti-lo aos seus filhos desde a primeira infância. A criança vê os pais lendo um livro ou os pais leem para ela. E isso não ocorre com famílias que tiveram uma escolarização muito curta. A prática de leitura no Brasil é algo que se herda e não que se adquire na escola. Diferentemente de outros países como a França, a Inglaterra, a Espanha e os Estados Unidos, onde a escola é o fator que mais impacta na prática de leitura seguida da escolarização dos pais. Então, podemos deduzir que, em nosso país, a escola não está cumprindo seu papel de fazer o aluno tomar gosto pela leitura.


 PL: Como as escolas podem reverter esse quadro?
AGB: Deve-se investir no acesso aos livros. Boa parte das crianças e dos jovens passa pelas escolas sem ler livros. Muitas vezes, as instituições não têm bibliotecas, mas, sim, depósitos de livros didáticos. Já estive em muitas escolas, principalmente da rede pública, onde os livros ficam trancados na sala do diretor ou não são emprestados. Eu já ouvi de muitos bibliotecários que os livros não são emprestados porque as crianças vão estragá-los. Não há circulação de livros. Em uma pesquisa com jovens que vivem nas periferias das metrópoles brasileiras, notamos que eles apresentam níveis baixos de alfabetismo, com pouco domínio de leitura e escrita. Na autoavaliação, os estudantes acham que estão ótimos, o que não foi verificado nos testes, que mostraram que eles leem e escrevem pouco e não são expostos a modalidades de leitura e escrita mais complexas. No máximo, escrevem bilhetes, tanto na escola como no trabalho. Por conta da demanda limitada, os jovens não percebem seu baixo alfabetismo.


PL: Como as mudanças provocadas pela tecnologia, como acesso à informação e às redes sociais, e nos perfis socioeconômicos da população impactaram esses dados?
AGB:
Na última década, a população teve mais acesso à tecnologia e notamos a migração nas práticas de leitura com o uso das novas tecnologias. Há um aumento geral de leitores do meio digital, principalmente porque hoje as pessoas se informam pela internet, além de utilizar as redes sociais como veículo de informação. Em relação às práticas de leitura e escrita, ocorreu a diminuição dos leitores tradicionais de livros, jornais e revistas no suporte impresso. Esses leitores se caracterizam por serem mais escolarizados, ricos, brancos e moradores das regiões Sul e Sudeste. Ao mesmo tempo, as populações que liam menos no suporte impresso, caracterizada por ser menos escolarizada, mais pobre, negros e moradores das regiões Norte e Nordeste, aumentaram essas práticas. Parece que há uma migração dos leitores tradicionais para os novos suportes digitais e, ao mesmo tempo, uma entrada dos novos grupos sociais, com mais acesso à renda e ao consumo, em direção aos suportes impressos.


PL: De que maneira o Pnaic, cujo foco é a alfabetização das crianças até os 8 anos de idade, pode contribuir para melhorar o alfabetismo?
AGB:
Investir na formação inicial pode ser um bom caminho para aumentar o alfabetismo. Contudo, não é apenas a escola que forma a criança, mas também o próprio universo onde ela está inserida. Nossas pesquisas comprovam que filhos de pais escolarizados apresentam conhecimentos de leitura e escrita superiores aos das outras crianças, pois vivem em um ambiente letrado e são expostas às práticas de leitura. Como as escolas públicas não podem esperar essa contribuição das famílias dos seus alunos, elas precisam realizar um trabalho ativo com situações que estimulem a leitura e a escrita, como contação de histórias e brincadeiras com os livros. Além disso, o ritmo de aprendizado diminui após a alfabetização porque a escola acredita que, como o aluno já sabe ler e escrever, ele aprendeu tudo o que tinha para aprender. No entanto, existe um conjunto de habilidades e conhecimentos que precisam ser ensinados, e a escola deve continuar o trabalho de aprendizagem com a leitura e produção de textos. No caso da leitura, há habilidades que o aluno não consegue desenvolver por si só. O aluno está alfabetizado, mas não tem fluência em leitura, não escreve a ortografia adequada e não compreende o que leu. Ele não é capaz de usar o conhecimento que adquiriu e pode se tornar um analfabeto funcional ou apresentar baixa alfabetização.


PL: Como a definição de um currículo comum para o território nacional pode garantir o direito da alfabetização para toda a população?
AGB: Acredito que é um passo importante para tornar a escola brasileira mais justa e menos desigual. É uma condição necessária, mas não é suficiente. Um caminho é definir o quanto todos devem saber. Entre outras coisas, por exemplo, definir que as crianças aos 6 anos de idade devem dominar o princípio alfabético, saber que as letras representam os fonemas e conhecer sua correspondência correta. Mas apenas um currículo comum não conseguirá resolver o problema da desigualdade. Para isso, outras medidas também são necessárias. A escola precisa fazer com que todos aprendam, pois nosso sistema de ensino também é desigual, com escolas que apresentam diferentes condições de infraestrutura e corpo docente. É preciso que todas as escolas partam das mesmas condições para garantir práticas de leitura e escrita de forma mais igualitária.


Leia os textos de Antônio Gomes Batista em nossa seção Colunas: 
• Alfabetização em qualquer idade
Alfabetização no momento certo

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