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EM REVISTAENTREVISTAS — LAURIANA GONÇALVES DE PAIVA-GUTTIEREZ: LEITURA E ESCRITA COMO PRÁTICAS SOCIAIS NA ALFABETI...

Lauriana Gonçalves de Paiva-Guttierez: leitura e escrita como práticas sociais na alfabetização

Lilian Romão


Outubro é celebrado como o mês da criança, e isso torna essa época muito especial. Mas a Plataforma do Letramento não se esquece de que esse também é o mês do professor. O dia 15 de outubro é um momento de reflexão e reconhecimento de uma profissão que tem ultrapassado desafios nos quatro cantos do Brasil.

Problemas como a falta de recursos para a educação, baixa remuneração, formação deficitária são assuntos comuns no dia a dia desse profissional. Somado a isso, a sociedade tem direcionado olhares para a escola, focando principalmente suas deficiências. Uma mudança do ponto de vista possibilitaria perceber que há muitas histórias de superação, escritas por pessoas que se tornam professores por opção.

É o caso da nossa entrevistada do mês, a professora e pesquisadora Lauriana Gonçalves de Paiva-Guttierez. Entre outras iniciativas para o letramento, Lauriana é a idealizadora do Projeto Biblioteca Virtual Infantil, do Colégio de Aplicação João XXIII, uma escola pública federal vinculada à Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em Minas Gerais. A proposta buscou reorganizar o currículo de Língua Portuguesa relacionando leitura e produção de textos a mídias digitais, dando possibilidade de as crianças vivenciarem o letramento para além das paredes da escola.

O projeto foi realizado em 2013 com alunos das três turmas do 3º ano do Ensino Fundamental do Colégio de Aplicação, onde há estudantes de todas as regiões da cidade e de todos os grupos socioeconômicos. A criação da Biblioteca Virtual envolveu cerca de 90 alunos, na faixa etária de 8 e 9 anos. Seu diferencial é o acervo, composto de livros produzidos pelas próprias crianças, que estão em processo de alfabetização. Pensando em possibilitar o acesso de leitores cegos, o acervo começou a ser adequado no final de 2013. Desde então, em parceria com o Núcleo de Cinema e Animação do colégio (CeNA 23), as histórias dos alunos vêm sendo escritas, narradas e gravadas em áudio, e alguns livros foram editados como e-books e audiobooks. “Assim, o silêncio no ambiente da biblioteca, que é um comportamento presumido no mundo inteiro, ganha outra conotação no espaço digital”, comemora Lauriana. Alguns livros já podem ser baixados em smartphones e tablets para ser lidos em diferentes locais e suportes.

Nas próximas linhas, simbolizando os milhões de professores brasileiros, a educadora de Juiz de Fora, formada em Pedagogia pela UFJF e especialista em Políticas Públicas e Formação Humana pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), conta um pouco dessa experiência.

Plataforma do Letramento: Como surgiu a ideia de criar uma biblioteca virtual?
Lauriana Gonçalves de Paiva-Guttierez: A problemática da escrita no espaço escolar, uma escrita escolar, desvinculada das práticas sociais, sempre se mostrou para mim como um engodo no trabalho com a língua escrita. O projeto nasceu da necessidade de enfrentar três dimensões desse problema.
A primeira dimensão são as práticas de escrita e leitura da/para escola e sem sentido social. Chamava-nos especial atenção a produção textual das crianças. Ao longo do ano, percebia que, no trabalho de construir e reconstruir tantos textos e histórias, arquivados em cadernos ou portfólios, as crianças ganhavam maturidade na escrita. No fim do ano letivo, ao devolver para as crianças os cadernos, silenciava o desejo de guardá-los comigo, devido à riqueza das histórias ali contidas, e me incomodava pensar na possibilidade de irem para o lixo. Era a memória de um ano escolar que se perdia. Nem o aluno, nem as famílias, nem nós, professores, teríamos a chance de recuperar as produções das crianças. Para evitar isso, num primeiro momento, comecei a digitalizar e arquivar os textos em CDs, que eram distribuídos às famílias.
A segunda dimensão diz respeito à didatização de gêneros textuais na aquisição da língua escrita. Buscou-se desenvolver uma proposta pedagógica em que os alunos fizessem um uso social da leitura e da escrita, buscando superar a artificialidade com a qual os gêneros textuais são trabalhados na escola.
O internetês é a terceira e última dimensão do problema. Percebemos que as produções dos alunos da "geração net" empregavam uma escrita que reproduzia a forma utilizada, por exemplo, nas redes sociais, nas listas de discussão, nos fóruns da web. Ao compor seus textos no computador, muitas vezes escreviam de forma bastante abreviada, utilizando apenas algumas consoantes para representar as palavras.
O que nos parecia era que, para as crianças, escrever no computador era sinônimo de escrita abreviada, pois desconsideravam os propósitos comunicativos e estruturais dos textos em razão do meio utilizado para a escrita. Era imprescindível desenvolvermos práticas de alfabetizar letrando digitalmente os alunos desde os anos iniciais do Ensino Fundamental, especialmente no ciclo de alfabetização.
 
PL: Qual foi a motivação para desenvolver o projeto?
LG: Foi a tentativa de dar sentido à escrita escolar para além dos muros da escola, com base em eventos de letramento, permitindo aos alunos vivenciar outras experiências de leitura e escrita. A possibilidade de divulgação e circulação dos textos escritos pelos alunos para além da escola, ao compor o acervo da Biblioteca Virtual Infantil, proporciona aos autores perceber e reconhecer a função social da leitura e da escrita. E foi muito estimulante pensar que estávamos desenvolvendo novas práticas e abordagens teórico-metodológicas, considerando as potencialidades do trabalho com os gêneros digitais baseado na produção textual das crianças em processo de alfabetização, a fim de torná-las alunos autores.
 
PL: Quais foram os primeiros passos do trabalho?
LG: O impulso inicial foi a necessidade de uma nova proposta pedagógica que articulasse o uso social das tecnologias digitais pelas crianças a uma leitura/escrita que extrapolasse a sala de aula, superando práticas divorciadas da infância e o desconhecimento do uso rotineiro dessas tecnologias pelos estudantes. Num primeiro momento, buscamos compreender quais os gêneros textuais/digitais que as crianças mais utilizam socialmente no meio digital. Aplicamos questionários para saber os gêneros textuais/digitais que as crianças mais leem no meio digital. Desse mapeamento, analisamos com os alunos algumas das características dos tipos textuais (digitais) apontados na pesquisa e discutimos as semelhanças e diferenças em relação aos tradicionais tipos textuais (impressos).
 
PL: Como você avalia a aprendizagem dos alunos?
LG: Por meio das produções e das interações das crianças entre si e com o professor, verificamos que as experiências e vivências com a língua foram ampliadas e dotadas de mais sentido. A leitura e a produção de textos deixaram de ser atividades meramente escolares para se tornar práticas de linguagem. As crianças aprendem não só sobre o texto em si, mas principalmente sobre suas funções e seus usos. Além disso, a publicação de todas as produções dos alunos rompeu a artificialidade da leitura e da escrita, conferindo autenticidade às práticas de linguagem realizadas e tornando os gêneros estudados, efetivamente, gêneros para comunicar.






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