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EM REVISTACOLUNAS — MOMENTO CERTO PARA APRENDER...

Momento certo para aprender


Antônio Gomes Batista, doutor em educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é professor associado da mesma instituição e professor convidado do curso de Especialización y Maestría de la Universidad Nacional de La Plata (Argentina). Pesquisa a alfabetização e a cultura escrita, assim como a produção dos saberes escolares na disciplina Português. Atualmente é coordenador de desenvolvimento de pesquisas do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

Alfabetização no momento certo
Antônio Augusto Gomes Batista

Como defendi em “Alfabetização em qualquer idade”, entendo que não há idade certa para alfabetizar: o aprendizado inicial da língua escrita e sua consolidação é parte do direito à educação e deve ser assegurado a todos, independentemente da idade, especialmente àqueles jovens e adultos que, em razão das desigualdades que caracterizam nosso país e nossa educação, não dominam as habilidades de leitura e escrita.

Mas usei também a expressão “idade certa”, presente no Pacto pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), federal, e no Programa Alfabetização da Idade Certa (Paic), do estado de Ceará. Considero esse um bom “mote”, um bom elemento para comunicação de uma decisão curricular: ainda que a alfabetização não tenha idade certa, tem momento certo; se não queremos produzir desigualdades escolares no domínio da língua escrita, precisamos definir o período da escolarização que deve marcar o final da alfabetização, que conhecimentos e habilidades definem essa etapa e que outras capacidades darão prosseguimento, nas etapas seguintes, ao domínio da língua escrita. É por isso, volto a insistir, que a questão é curricular; não é uma questão de idade.

Na história de nossa escola – e também na de outros países – já se concebeu a alfabetização em termos de idade certa, pois se acreditava que só aos 7 anos a criança estaria “pronta” para o domínio da escrita: já teria desenvolvido a linguagem oral, habilidades motoras, de discriminação visual e auditiva, por exemplo, que seriam condições para aprender a ler e a escrever. Daí a pré-escola ser pensada, nessa época, em grande parte, como um período preparatório para a alfabetização e para a aquisição da “prontidão”.

Eu me alfabetizei nessa época, nos anos 1960, no Grupo Escolar Dr. Raul Soares, em Itabirito, então uma pequena cidade de Minas Gerais, que possuía apenas duas escolas primárias na região urbana. As turmas eram homogêneas e, no início do ano, nos ameaçava o medo de cair em desgraça: sermos “remanejados” (palavra estranha para nós) a uma turma de “atrasados” – afinal, éramos a turma A. Não sabia – não sabíamos – como se caía em desgraça e vergonha. Suponho hoje que usavam um dos testes de prontidão. Eu me lembro de a única menina negra da turma – Lúcia, seu nome ficou gravado – ser transferida de turma. Lembro-me de ter sido chamada pela direção, de voltar chorando para pegar seu material e ir para exílio da turma B. Ao final do primeiro semestre, deveríamos estar lendo – essa era a expectativa para nós, da turma A. Usávamos a cartilha Os três porquinhos, de Lucia Casasanta, uma importante educadora mineira e grande divulgadora do método global. Eu desconfio de que, quanto mais atrasadas as turmas, mais era frequente o uso do método silábico – esse foi, pelo menos, o que ouvi de algumas alfabetizadoras da época que entrevistei recentemente.

No final do semestre já estava lendo. Eu me lembro da primeira palavra lida fora da escola e de quando meus pais descobriram que já sabia transformar as letras mudas em sons. Estávamos indo para o Rio de Janeiro, onde moravam meus avós. As letras do posto de gasolina se impuseram para mim: “Teqxaco”, eu disse. Entre os risos e correção de minha mãe – “Texaco, filho” –, descobri esta coisa estranha: era agora impossível não ler; as letras gritavam seu som, às vezes seu significado também; por maior o esforço que fizesse para não ler, os traços agora eram sempre letras com sons encadeados.

Na volta das férias veio o primeiro livro de leitura: As mais belas histórias e, se não me engano, acompanhado de As mais belas poesias, ambos de Lucia Casasanta. Eram para a gente ler “de carreirinha”, com fluência: primeiro silenciosamente, sem mover a cabeça, sem ajuda do dedo, sem ajuda de régua. Depois em voz alta, com expressão. Em pouco tempo, para meu desespero, na Igreja católica renovada por João XXIII, já estava fazendo a primeira ou a segunda leitura na missa, com os nomes impossíveis do Gênesis.

Não sei o que aconteceu com Lúcia, a menina “remanejada”. As pesquisas mais tarde mostraram, nos anos 1980, que, no primeiro ano do ensino primário, as reprovações beiravam 50%. A estatística se manifestava para nós em volta do pátio. As turmas de primeiro ano iam em sequência da mais adiantada para a mais atrasada até chegar à cantina. Quanto mais perto da cantina, mais as crianças eram mais velhas, mais eram pobres, mais eram negras. Nós os chamávamos, com medo e com nosso orgulho de classe transformado pelo orgulho do mérito escolar, de “cavalões”.

Não há por que ter saudades de um tempo em que havia idade certa para aprender a ler. Havia idade certa para alguns. Para os outros havia o não aprendizado, as letras que se moviam sem se juntar formando sequências de sons e significados: segundo o diagnóstico escolar, eles não teriam as condições necessárias – cognitivas e linguísticas – para se alfabetizar. Era “natural” que fracassassem.

Todas essas explicações para o suposto fracasso das crianças em termos de deficiências linguísticas e cognitivas já caíram por terra há anos; o mesmo em termos de maturação biológica e cognitiva: se as crianças convivem em ambientes onde a escrita está presente, é utilizada, e onde adultos e professores as estimulam e fazem uma adequada e, no caso da escola, sistemática mediação entre elas e o mundo das letras, desde muito cedo todas elas, independentemente de sua origem social, são capazes de aprender.

Para que avancemos nessa direção, porém, precisamos nos convencer de dois pontos. Primeiro, que a escola deve se responsabilizar por, em determinados momentos da escolarização, alcançar diferentes objetivos em relação à alfabetização das crianças. É preciso que, na pré-escola, elas aprendam determinadas coisas; é necessário que, no primeiro ano do ensino fundamental, dominem outras; que, no segundo, avancem em relação a algo mais, e assim por diante. Há, portanto, momentos certos para aprender determinados conhecimentos e habilidades. E o que define essa relação entre tempo e ensino-aprendizado é um currículo. Evidentemente, para isso deve haver condições; deve haver um debate e um consenso; e é fundamental prever mecanismos de acompanhamento permanente do desenvolvimento dos alunos e de reformulação de estratégias de ensino.

Mas, em segundo lugar, e como principal condição, é necessário que se realize um ato de crença – mesmo que de algo já demonstrado cientificamente: sabemos que há momentos certos porque todas as crianças podem aprender a língua escrita, independentemente de sua origem social. Definir os momentos para isso e uma progressão do ensino é uma forma de assegurar direitos e responsabilizar as redes de ensino e seus agentes pela garantia desses direitos a todos. É, assim, uma forma de tornar a escola mais justa e nosso país, menos desigual.


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Leia o texto anterior desta coluna: Alfabetização em qualquer idade



Antônio Gomes Batista, doutor em educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é professor associado da mesma instituição e professor convidado do curso de Especialización y Maestría de la Universidad Nacional de La Plata (Argentina). Pesquisa a alfabetização e a cultura escrita, assim como a produção dos saberes escolares na disciplina Português. Atualmente é coordenador de desenvolvimento de pesquisas do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).



Antônio Gomes Batista, doutor em educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é professor associado da mesma instituição e professor convidado do curso de Especialización y Maestría de la Universidad Nacional de La Plata (Argentina). Pesquisa a alfabetização e a cultura escrita, assim como a produção dos saberes escolares na disciplina Português. Atualmente é coordenador de desenvolvimento de pesquisas do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

Alfabetização no momento certo

Antônio Augusto Gomes Batista

Como defendi em “Alfabetização em qualquer idade”, entendo que não há idade certa para alfabetizar: o aprendizado inicial da língua escrita e sua consolidação é parte do direito à educação e deve ser assegurado a todos, independentemente da idade, especialmente àqueles jovens e adultos que, em razão das desigualdades que caracterizam nosso país e nossa educação, não dominam as habilidades de leitura e escrita.

Mas usei também a expressão “idade certa”, presente no Pacto pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), federal, e no Programa Alfabetização da Idade Certa (Paic), do estado de Ceará. Considero esse um bom “mote”, um bom elemento para comunicação de uma decisão curricular: ainda que a alfabetização não tenha idade certa, tem momento certo; se não queremos produzir desigualdades escolares no domínio da língua escrita, precisamos definir o período da escolarização que deve marcar o final da alfabetização, que conhecimentos e habilidades definem essa etapa e que outras capacidades darão prosseguimento, nas etapas seguintes, ao domínio da língua escrita. É por isso, volto a insistir, que a questão é curricular; não é uma questão de idade.

Na história de nossa escola – e também na de outros países – já se concebeu a alfabetização em termos de idade certa, pois se acreditava que só aos 7 anos a criança estaria “pronta” para o domínio da escrita: já teria desenvolvido a linguagem oral, habilidades motoras, de discriminação visual e auditiva, por exemplo, que seriam condições para aprender a ler e a escrever. Daí a pré-escola ser pensada, nessa época, em grande parte, como um período preparatório para a alfabetização e para a aquisição da “prontidão”.

Eu me alfabetizei nessa época, nos anos 1960, no Grupo Escolar Dr. Raul Soares, em Itabirito, então uma pequena cidade de Minas Gerais, que possuía apenas duas escolas primárias na região urbana. As turmas eram homogêneas e, no início do ano, nos ameaçava o medo de cair em desgraça: sermos “remanejados” (palavra estranha para nós) a uma turma de “atrasados” – afinal, éramos a turma A. Não sabia – não sabíamos – como se caía em desgraça e vergonha. Suponho hoje que usavam um dos testes de prontidão. Eu me lembro de a única menina negra da turma – Lúcia, seu nome ficou gravado – ser transferida de turma. Lembro-me de ter sido chamada pela direção, de voltar chorando para pegar seu material e ir para exílio da turma B. Ao final do primeiro semestre, deveríamos estar lendo – essa era a expectativa para nós, da turma A. Usávamos a cartilha Os três porquinhos, de Lucia Casasanta, uma importante educadora mineira e grande divulgadora do método global. Eu desconfio de que, quanto mais atrasadas as turmas, mais era frequente o uso do método silábico – esse foi, pelo menos, o que ouvi de algumas alfabetizadoras da época que entrevistei recentemente.

No final do semestre já estava lendo. Eu me lembro da primeira palavra lida fora da escola e de quando meus pais descobriram que já sabia transformar as letras mudas em sons. Estávamos indo para o Rio de Janeiro, onde moravam meus avós. As letras do posto de gasolina se impuseram para mim: “Teqxaco”, eu disse. Entre os risos e correção de minha mãe – “Texaco, filho” –, descobri esta coisa estranha: era agora impossível não ler; as letras gritavam seu som, às vezes seu significado também; por maior o esforço que fizesse para não ler, os traços agora eram sempre letras com sons encadeados.

Na volta das férias veio o primeiro livro de leitura: As mais belas histórias e, se não me engano, acompanhado de As mais belas poesias, ambos de Lucia Casasanta. Eram para a gente ler “de carreirinha”, com fluência: primeiro silenciosamente, sem mover a cabeça, sem ajuda do dedo, sem ajuda de régua. Depois em voz alta, com expressão. Em pouco tempo, para meu desespero, na Igreja católica renovada por João XXIII, já estava fazendo a primeira ou a segunda leitura na missa, com os nomes impossíveis do Gênesis.

Não sei o que aconteceu com Lúcia, a menina “remanejada”. As pesquisas mais tarde mostraram, nos anos 1980, que, no primeiro ano do ensino primário, as reprovações beiravam 50%. A estatística se manifestava para nós em volta do pátio. As turmas de primeiro ano iam em sequência da mais adiantada para a mais atrasada até chegar à cantina. Quanto mais perto da cantina, mais as crianças eram mais velhas, mais eram pobres, mais eram negras. Nós os chamávamos, com medo e com nosso orgulho de classe transformado pelo orgulho do mérito escolar, de “cavalões”.

Não há por que ter saudades de um tempo em que havia idade certa para aprender a ler. Havia idade certa para alguns. Para os outros havia o não aprendizado, as letras que se moviam sem se juntar formando sequências de sons e significados: segundo o diagnóstico escolar, eles não teriam as condições necessárias – cognitivas e linguísticas – para se alfabetizar. Era “natural” que fracassassem.

Todas essas explicações para o suposto fracasso das crianças em termos de deficiências linguísticas e cognitivas já caíram por terra há anos; o mesmo em termos de maturação biológica e cognitiva: se as crianças convivem em ambientes onde a escrita está presente, é utilizada, e onde adultos e professores as estimulam e fazem uma adequada e, no caso da escola, sistemática mediação entre elas e o mundo das letras, desde muito cedo todas elas, independentemente de sua origem social, são capazes de aprender.

Para que avancemos nessa direção, porém, precisamos nos convencer de dois pontos. Primeiro, que a escola deve se responsabilizar por, em determinados momentos da escolarização, alcançar diferentes objetivos em relação à alfabetização das crianças. É preciso que, na pré-escola, elas aprendam determinadas coisas; é necessário que, no primeiro ano do ensino fundamental, dominem outras; que, no segundo, avancem em relação a algo mais, e assim por diante. Há, portanto, momentos certos para aprender determinados conhecimentos e habilidades. E o que define essa relação entre tempo e ensino-aprendizado é um currículo. Evidentemente, para isso deve haver condições; deve haver um debate e um consenso; e é fundamental prever mecanismos de acompanhamento permanente do desenvolvimento dos alunos e de reformulação de estratégias de ensino.

Mas, em segundo lugar, e como principal condição, é necessário que se realize um ato de crença – mesmo que de algo já demostrado cientificamente: sabemos que há momentos certos porque todas as crianças podem aprender a língua escrita, independentemente de sua origem social. Definir os momentos para isso e uma progressão do ensino é uma forma de assegurar direitos e responsabilizar as redes de ensino e seus agentes pela garantia desses direitos a todos. É, assim, uma forma de tornar a escola mais justa e nosso país, menos desigual.

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COMENTÁRIO(S)
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MARIA KEILIANE LEITÃO PIMENTELMARIA KEILIANE LEITÃO PIMENTEL disse em 09/12/2016 23h45
Muito bom. Esse texto garante aos professores uma grande reflexão sobre sua prática e sua forma de pensar sobre alfabetizar pois esse processo torna-se contínuo de acordo com as necessidades que surgem.
SORAIA CRISTINASORAIA CRISTINA disse em 06/10/2016 12h51
Concordo que não há uma idade certa pra se alfabetizar. Deve sim ter um trabalho consciente e bem feito das pessoas que integram o ciclo de alfabetização escolar. Quando isso acontece é possível alfabetizar com prazer independente da idade.
SANDRA IARA ARAUJOSANDRA IARA ARAUJO disse em 22/06/2016 14h09
este artigo é muito interessante, nos leva a refletir sobre como deciframos os códigos em nossa formação, não só de letras e sons, mas qual a real resignificação constante de cada um desses códigos de nossa vida!
JOSELYJOSELY disse em 10/06/2016 00h31
Acredito que não existe uma idade para alfabetizar também, pois acredito que tudo depende do aprendiz.
LIANELIANE disse em 21/01/2014 17h21
Muito pertinente a reflexão do professor! Acho muito estéril a discussão sobre a tal idade certa ser 6 ou 8 anos, conforme me expressei aqui na Plataforma, em um outro item (http://www.plataformadole...-seis-anos.html). Mas problematizar a expressão "idade certa" eu também concordo que é bem interessante. Apesar de ser um bom mote - como disse o professor - não condiz com o que realmente estamos buscando. Só ressalto que, embora o Pnaic esteja ancorado na tal "idade certa", é justamente pensando numa alfabetização consolidada e no convívio com a escrita como prática social, que fala na alfabetização até os 8 anos. A tal idade certa sendo aos 6, como os detratores do Pnaic alardeiam, é aqui alargada aos 8 para justamente poder acolher as consolidações do sistema de escrita, o letramento de crianças que muitas vezes têm pouca oportunidade de convívio com práticas letradas e o tempo das apropriações de cada um, que podem ser ajustadas dentro do ciclo. Ainda que haja metas apontadas para cada ano dentro do ciclo. Acho a reflexão do professor muito pertinente, esclarecedora e centrada no que de fato é importante nessa discussão. Seja em que idade for!
VILMAVILMA disse em 08/11/2013 21h00
Ótima discussão. Também acredito que não existe uma idade certa para alfabetizar, mas com certeza há um momento certo.
LUCIALUCIA disse em 04/11/2013 23h13
Muito precisa a colocação. Se lembrarmos ainda, q as crianças saem do final do ciclo de alfabetização com mais de 9 anos é mais do que preciso definir os tempos e as aprendizagens que compõem esse período. Certeiro, a questão é curricular! Parabéns!
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