Compartilhar Facebook   
Favoritar
EM REVISTACOLUNAS — POKÉMON GO PODE NOS AJUDAR A LER AS CIDADES?...

Pokémon GO pode nos ajudar a ler as cidades?


Mas como são decididos e distribuídos esses espaços de interesse do jogo no espaço público? A empresa que o criou se baseou em bancos de dados de outros jogos que já tinham essa lógica de geolocalização e também em locais de maior interesse artístico, com obras mapeadas, especialmente monumentos e grafites. Infelizmente, esse tipo de distribuição gera desigualdade, pois há pouquíssimos pokémons, pokestops e ginásios em regiões de periferia. Esse é um dado fundamental ao ler um fenômeno social.


Outro ponto importante é que, se por um lado o jogo pode levar as crianças e os jovens a prestar mais atenção na cidade, a procurar espaços e descobrir obras que nem tinham reparado, por outro lado podem estar tão imersos no jogo que a pokebola (o artefato de consumo) se torna muito mais importante do que o significado estético daquele local e a importância do patrimônio cultural fica em segundo plano, sem nenhum interesse ou aprofundamento.


Perceba que o jogo envolve muitas vertentes motivacionais, como: personagens midiáticos conhecidos; competitividade pela raridade e pela busca de ter e colecionar, todas elas muito fortemente ligadas ao consumo e que podem levar a extremos de alienação. Entretanto, o jogo também convida à exploração de novos ambientes, potencializa a conexão com espaços urbanos e de interesse de patrimônio histórico, e pode ajudar a mapeá-los, inclusive, para explicitar suas contradições.


Mais do que uma tecnologia ou um novo tipo de jogo, estamos inaugurando novas formas de ler o mundo, e sabemos que a leitura não é algo passivo, que depende só do conteúdo ou da linguagem. Leitura é interação e provocação à reflexão. Quando fazemos da leitura um ato político e educacional, temos intencionalidade em tais atos, por isso temos que aproveitar esses fenômenos para aprofundar as novas leituras. 


Mesmo um jogo criado para entretenimento e com fins comerciais como o Pokémon GO pode ensinar coisas, ainda que não tenha sido produzido com essa finalidade. A ação educativa de pais, professores e outros educadores é de propor ou, pelo menos, provocar essas novas leituras com base nesses jogos, inclusive aproveitando sua potencialidade. Essas propostas devem ser intencionais, no sentido de convidar as crianças e os jovens a novas percepções, experimentações, discussões, despertando interesses e problematizações, para que possam formular novas perguntas, mapear seus trajetos e conhecer melhor sua cidade. Mas essas ações vão além do ato de jogar de forma passiva e sem reflexão, exigindo provocações e questionamentos alimentados de forma colaborativa.


Esse tipo de jogo pervasivo tende a aumentar nos próximos anos, tanto que em breve deve ser lançado um novo game sobre Harry Potter, que provavelmente será outro sucesso. Esperemos que tenha mais elementos para projetar personagens preferidos, magias e encantamentos em nossos caminhos e cidades, de modo que nos ajude a compreender melhor nossa relação com elas e a aprender cada vez mais por meio de nossas reflexões.


Para isso, além de capturar e conjurar monstrinhos, é necessário compartilhar e resgatar nossas histórias. Nesse sentido, os personagens fictícios e fantásticos podem servir não só para ofuscar a realidade ao criar mundos paralelos e alienar como consumo fácil, mas também podem ser parceiros e companheiros nessa tarefa de contar e reencontrar histórias.


Por isso, as ações de educação intencional, que ajudam os jogadores a refletir e questionar, são muito importantes para que se tire proveito desse engajamento e amplie a leitura do mundo, criando novas interações e formas de ocupar e colaborar com a cidade e os espaços públicos.


*Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (USP), com mestrado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutorado em Educação pela USP. Trabalha com tecnologia educacional desde 1993 e foi, por cinco anos, coordenadora dos cursos Tecnologias na Aprendizagem e Docência no Ensino Superior do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) de São Paulo.
Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), na área de Tecnologia Educacional da Universidade Aberta e faz parte do Grupo de Pesquisa em Comunicação e Criação nas Mídias (CCM) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação On-Line. 




1 2 
ÚLTIMAS COLUNAS

...
MAIS LIDAS
Literatura infantil lúdica
Coluna aborda a importância de se trabalhar a literatura infantil de maneira lúdica e prazerosa.
Família e escola, responsabilidades...
Raimunda Alves Melo* Nos últimos anos, tem-se discutido bastante sobre a relação família e escola e...
VEJA MAIS
Especial multimídia
Conheça o material Práticas de leitura na escola.
VOLTAR
COMENTÁRIO(S)
Faça login para comentar neste artigo, clique aqui!
Licença Creative CommonsEste trabalho foi licenciado com
uma Licença Creative Commons
PARCERIAS