Compartilhar Facebook   
Favoritar
EM REVISTACOLUNAS — NARRAÇÃO DE ESTÓRIAS E FORMAÇÃO DE PROFESSORES...

Narração de estórias e formação de professores

Fabiana Rubira*


Um tempo fora do tempo. Um lugar sobre e além do tempo do H das Horas que nos devoram. Um momento de liberdade ao perambularmos pela Terra dos Encantados. Um descanso à alma desses vagamundos, para que possam se refrescar na fonte das águas ancestrais da Memória, sentando-se à sombra de uma frondosa e acolhedora Árvore que ali está desde sempre.


Aprendi, lendo e ouvindo Guimarães Rosa, que somos seres feitos de histórias e estórias. Os fios dos fatos vividos se entrelaçam aos fios dos sonhos que sonhamos de olhos fechados e aos que sonhamos de olhos bem abertos, nesses momentos poéticos, nos quais ouvimos e contamos estórias maravilhosas sabidas de Cor e que, por isso mesmo, calam a mente inquisidora, fazendo uma conexão direta com nosso Coração. “As palavras que saem da boca tocam as orelhas. As palavras que saem do coração tocam o coração”, este provérbio africano, dito pelo griot Hassane Kouyaté, ressignificou esse saber de cor: algo que aprendemos e sabemos de CorAção.


Foi numa experiência, como professora recém-contratada num curso de Pedagogia, que toda teoria que eu havia pesquisado em meu mestrado, sobre o poder de ensinamento das estórias e seu potencial humanizador, ganhou corpo, cores e novos sentidos. Não estava conseguindo trabalhar com um grupo de 60 mulheres, que estavam chateadas com algumas resoluções administrativas da faculdade. Três semanas haviam se passado; mas nem todos os argumentos lógicos utilizados conseguiam demovê-las da atitude de não assistir às aulas. Foi quando decidi, sherazademente, oferecer-lhes, sem nenhuma cobrança pedagógica, uma noite de estórias. No início, apenas duas alunas me ouviam; porém, depois de uma hora, percebi que a maioria delas estava sentada, de olhos vidrados em mim. Calei-me e uma delas disse: “Não temos nada contra você. Você até parece legal, mas...” Então, o canal do diálogo se estabeleceu entre nós... Barreiras que pareciam intransponíveis foram franqueadas pela poesia da arte de narrar estórias.


De volta à Faculdade de Educação da USP, iniciei uma nova jornada investigativa com essa arte milenar no Laboratório Experimental de Arte-Educação & Cultura (Lab_Arte). Não para capacitar professores da Educação Infantil como contadores de estórias no sentido formal e tecnicista. Queria contar-lhes estórias. Despertar neles o desejo de compartilhar histórias e estórias, criando assim um espaço de partilha de saberes ancestrais, que dispensava artifícios como fantasias, fantoches e outros. Éramos só nós, sentados em torno da luz de um candeeiro, com nossa boca e ouvidos generosos disponíveis para contar e ouvir narrativas da tradição oral. Qualquer uma? Não! Aquela que tocou meu coração. Aquela que me acompanha desde a infância. A minha favorita e que vou oferecer como um presente precioso a quem estiver comigo. Nessa roda, contando, cantando, brincando, o tempo de Cronos, deus que devora seus próprios filhos, era suspenso. Saíamos de lá com uma grata e feliz sensação de estarmos verdadeiramente descansados, nutridos, de termos feito algo realmente importante pela nossa formação, não apenas docente, mas humana.


A arte de narrar estórias é a arte do encontro e do diálogo. Nunca saberei com exatidão o que ensinei nesses meus encontros com os educadores. No entanto, os sorrisos e abraços sinceros que recebo dos que me reencontram pelas ruas do Mundo dos Desencantados reafirmam a esperança dos que conhecem os caminhos que levam àquele lugar, fora do tempo, onde podemos nos lembrar de quem somos, recuperar nossas forças e seguir viagem. Porque a viagem continua...


* Professora no Ensino Superior, contadora de estórias e pesquisadora da tradição oral. Graduada em Letras, mestra e doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), defendeu a tese Dançando com o Minotauro nas noites: narração de estórias e formação humana (São Paulo: USP, 2015). Foi coordenadora e idealizadora do Núcleo de Narração de Estórias do Lab_Arte da Faculdade de Educação da USP, onde hoje atua como professora pesquisadora convidada.

ÚLTIMAS COLUNAS

...
MAIS LIDAS
Literatura infantil lúdica
Coluna aborda a importância de se trabalhar a literatura infantil de maneira lúdica e prazerosa.
Sobre novos e multiletramentos, culturas...
Jacqueline P. Barbosa* Embora seja uma quase unanimidade dizer que as tecnologias digitais de comunicação e...
VEJA MAIS
Especial multimídia
Conheça o material Práticas de leitura na escola.
VOLTAR
COMENTÁRIO(S)
Faça login para comentar neste artigo, clique aqui!
CAROLINACAROLINA disse em 25/07/2016 17h58
Texto lindo! Demonstra que a formação do professor passa, essencialmente, pela formação humana. Quantas vezes não presenciei atitudes desumanas e desumanizadoras em salas de aula durantes os estágios que fiz... Nesse mundo duro é tão fácil nos desumanizarmos, precisamos das estórias, sempre, para nos resgatarmos.
VALERIAVALERIA disse em 06/07/2016 06h23
Olá. Bom dia.amei o texto. Também acredito que contar história e uma arte maravilhosa , fiz alguns cursos . casa vez quero aprendar mais .Meus alunos ficam fascinados
PATRÍCIAPATRÍCIA disse em 25/06/2016 15h02
Muito bom esse texto! Bem explicativo e nos mostra a contação de estória de uma forma que ainda não tinha visto.
IZABELEIZABELE disse em 24/06/2016 08h25
Adorei, texto maravilhoso! Conseguiu exprimir em palavras o quanto é bom contar e ouvir histórias, como essa ação nos torna mais humanos. Sou contadora de histórias há 4 anos e meu maior público são os pequeninos. Seus olhares e suspiros durante a narração são mágicos, eles nos dizem tantas coisas com esses suspiros.
CLAUDIA CARDINALECLAUDIA CARDINALE disse em 23/06/2016 21h45
Olá Fiz inscrição em alguns cursos da plataforma de letramento.Porém não recebi até agora informações se minha inscrição foi aceita?
FABIANAFABIANA disse em 23/06/2016 17h27
Oi, Tatiana! Grata pelo comentário. Sim, há vários cursos de formação para contadores pelo Brasil inteiro... Aqui em São Paulo, tem um oferecido gratuitamente pela Rede Municipal de Bibliotecas, só não me lembro se é semestral ou anual... Tem também no Lab-Arte da FEUSP... Pagos existem vários, tem até curso de pósgraduação- em Contação na Casa Tombada...
FABIANAFABIANA disse em 23/06/2016 17h27
Oi, Tatiana! Grata pelo comentário. Sim, há vários cursos de formação para contadores pelo Brasil inteiro... Aqui em São Paulo, tem um oferecido gratuitamente pela Rede Municipal de Bibliotecas, só não me lembro se é semestral ou anual... Tem também no Lab-Arte da FEUSP... Pagos existem vários, tem até curso de pósgraduação- em Contação na Casa Tombada...
TATIANA CHRISTINATATIANA CHRISTINA disse em 23/06/2016 16h56
Que bela história! Experiências que nos fazem crescer...Sou graduanda de Pedagogia e gostaria de saber se existem cursos de contação de histórias; como ser uma contadora de histórias?
TATIANA CHRISTINATATIANA CHRISTINA disse em 23/06/2016 16h55
Que bela história! Experiências que nos fazem crescer...Gostaria de saber se existem cursos de contação de histórias; como ser uma contadora de histórias?
Licença Creative CommonsEste trabalho foi licenciado com
uma Licença Creative Commons
PARCERIAS