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EM REVISTACOLUNAS — SOBRE NOVOS E MULTILETRAMENTOS, CULTURAS DIGITAIS E TECNOLOGIAS NA ESCOLA...

Sobre novos e multiletramentos, culturas digitais e tecnologias na escola

Jacqueline P. Barbosa*


Embora seja uma quase unanimidade dizer que as tecnologias digitais de comunicação e informação (TDIC) devem estar cada vez mais presentes na escola, a perspectiva, o recorte e a forma dessa presença variam muito, sendo que, em certos aspectos, a primeira direciona os outros dois. Invertendo o fluxo, começaremos por tecer considerações sobre o recorte e a forma, para então chegar às perspectivas.


O recorte diz respeito à tecnologia: entre outras possibilidades, alguns estudiosos e educadores focam nos artefatos em si mesmo e nos seus vários usos possíveis; outros se referem à cultura digital, colocando em evidência diferentes formas de ação, relação, agrupamentos, práticas sociais, valores, sistemas de crença etc. que instituem diferentes culturas no mundo digital. Outros ainda tecem considerações e proposições sobre a esfera digital com base em apontamentos sobre os novos letramentos e multiletramentos, destacando as práticas sociais e de linguagem que têm lugar nessa esfera e o novo ethos que delas decorre, ao mesmo tempo que as instaura.


Quanto à forma como a tecnologia está presente na escola, podemos ter pelo menos três situações:
• tecnologia como meio de facilitar o ensino-aprendizagem de conteúdos e o desenvolvimento de habilidades (ferramenta importante para didatização dos conteúdos);
• tecnologia como lugar/instância em que novas práticas sociais, culturais e de linguagem se apresentam;
• tecnologia como pauta de discussão.


Dessas três formas, sem dúvida nenhuma, a primeira é a mais difundida, antiga e desenvolvida, precedendo os computadores e as tecnologias digitais. Na década de 1970, já se discutiam as possibilidades do uso de vídeo na escola, por exemplo. Já as duas últimas formas, embora estejam na ordem do dia em outras instâncias sociais e sejam tema de trabalhos científicos e de divulgação variados, ainda têm presença tímida na escola, quando não estão até mesmo ausentes. Isso não é devido somente a questões de infraestrutura, como dificuldade de acesso à internet, mas também a questões ligadas aos currículos (ainda rígidos e pouco permeáveis ao que não é valorizado pela cultura dominante), à cultura escolar (que tende a resistir a mudanças), à formação de professores (que ainda apresenta lacunas, deficiências e distorções), à disponibilização de conteúdos (ainda precária no que diz respeito à qualidade), entre outras.


Trabalhar na perspectiva dos novos e multiletramentos ou tomar a tecnologia como lugar em que novas práticas sociais, culturais e de linguagem têm espaço não é somente incluir novos gêneros ou usos de ambientes e ferramentas no currículo – como comentários, posts, vlogs, memes, playlists comentadas, reportagens multimidiáticas, videominutos, podcasts, vidding, political remix, agregadores de conteúdos, construtores de games, redes sociais, editores de foto, vídeo, áudio etc. −, nem tampouco propor que os alunos façam o que já fazem fora da escola. As dimensões ética, estética e política precisam permear as atividades e discussões. Criar um canal no YouTube e publicar vídeos pode ser uma atividade interessante (dentro ou fora da escola), mas à instituição escolar caberia discutir critérios de apreciação estética e significados possíveis das muitas ações envolvidas nas práticas de produção, publicação e difusão de vídeos. Isso vale para toda cultura maker. Se, por um lado, se trata de um movimento com grande potencial de aprendizagem, seja na perspectiva da criatividade, do desenvolvimento de várias habilidades e do empreendedorismo (ou do empoderamento, dependendo da perspectiva), por outro lado, dá vazão a produções insignificantes, a um “lixo cibernético” considerável e pode gerar expectativas frustradas para a maioria dos usuários (o que não é de todo ruim, já que, mais do que montar uma banda de rock hoje, muitos jovens querem é ter um canal no YouTube ou uma startup que os faça ricos e famosos antes dos 20 e poucos anos).


Entre o consumidor de arte que fotografa tudo em uma exposição, não raro sem olhar diretamente para o que está exposto, no afã de capturar para si as obras, de mostrar para o outro que esteve lá, e o apocalíptico de Umberto Eco, que é completamente contra o ato de tirar fotografias em exposições (algo tido como profano), há possibilidades de a escola ressignificar a fotografia, retirá-la da banalização cotidiana a que as facilidades tecnológicas a condenaram: podem-se planejar visitas guiadas a museus, em que o olhar seja contextualizado e desenvolvido em muitas direções – desde entender o que é uma curadoria (veja definição no Experimente "Produzir uma playlist comentada com a turma") até perceber os sentidos subjetivos que podem/devem emergir −, e que, em um dado momento, possam conter uma proposta de curadoria individual: de tudo o que eu vi, o que mereceria um registro fotográfico?   


Essa reflexão sobre as ações e práticas que têm lugar na cultura digital já traz em si (ou deveria trazer) um tanto do terceiro modo de a tecnologia estar presente na escola − como objeto de discussão –, porque essas coisas se interpenetram.


Faz-se necessário trazer para as pautas de discussão os riscos e significados da hiperexposição nas redes, a selfiemania e a exacerbação do narcisismo, a obsessão por views e por ser curtido, assim como as várias dimensões do capital social. Como reconhecer e lidar com os haters? Como não se manter eternamente na superfície? Quais os limites para a liberdade de expressão? Sem considerar as questões que “bombaram” (e as que não “bombaram” e por que não “bombaram”) nas redes, há muitos temas que poderiam render boas experiências de aprendizagem.


Mas, como dissemos no início, as escolhas dos recortes e das formas de abordar a tecnologia (e os letramentos) na escola derivam de diferentes perspectivas: o que se pretende é uma abordagem mais funcional e pragmática no trato com a tecnologia (e com os letramentos), de forma que torne os egressos da escola aptos a lidar com os vários tipos de textos, produções culturais e tecnologias (e com as rápidas mudanças tecnológicas) no trabalho e na vida social, ou uma apropriação crítica desses novos letramentos, que contribua para modos mais fraternos de se relacionar? Entre essas duas perspectivas, há um espectro considerável de possibilidades, mas, não nos enganemos, a escolha é, como sempre, uma atitude política.


Referências bibliográficas:
ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados (1964). Trad. Pérola de Carvalho. São Paulo: Perspectiva, 1970. 
GARCÍA-CANCLINI, Néstor. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2006. 
______. Diferentes, desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2005. 
GRUPO DE NOVA LONDRES. A pedagogy of multiliteracies: Designing social futures. In: COPE, B; KALANTZIS, M. (Ed.). Multiliteracies: Literacy learning and the design of social futures. London/New York: Routledge, 2006 [2000/1996]. p. 9-37.  
KNOBEL, Michele; LANKSHEAR, Colin (Ed.). A new literacies sampler. New York: Peter Lang, 2007.
ROJO, R.; BARBOSA, J. P. Multiletramentos e currículo no ensino integral: anos iniciais do Ensino Fundamental. São Paulo: Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, 2015. (Circulação restrita.)


* Mestre e doutora em Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pós-doutoranda do Programa de Investigación en Ciencias Sociales, Niñez y Juventud (Universidad de Manizales, Colômbia; PUC-SP; El Colegio de la Frontera Norte, México; e Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales – Clacso). É professora do Departamento de Linguística Aplicada da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e trabalha com os seguintes temas: novos e multiletramentos, gêneros do discurso, leitura e produção de textos nos Ensinos Fundamental e Médio, currículo de Língua Portuguesa, formação de professores, educação a distância, elaboração e avaliação de material didático impresso e digital.

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COMENTÁRIO(S)
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MARIA DAS DORESMARIA DAS DORES disse em 23/09/2017 16h44
Trabalhar com as novas tecnologias na sala de aula é, sem dúvida, indispensável, já que os alunos estão inseridos num mundo totalmente tecnológico. No entanto, o uso desses aparatos tecnológicos devem ser conduzidos pelo professor para que não se tornem um problema.
ANA RITAANA RITA disse em 03/08/2016 00h18
Letramento,na educação infantil, é muito importante para a descoberta e aprendizado, da criança. A leitura e escrita são duas personagens importante. Quanto a criança esta aprendendo a ler antes ela aprende a escrever fazendo seus rabiscos para ela tem o grande significado.Letramento pode ocorre em qualquer lugar sem ser na escola.
FELLIPEFELLIPE disse em 02/06/2016 16h45
De fato, o enfoque pedagógico mais viável, na formação para a linguagem, é aquele que permite investigar o modo como os seres humanos se comunicam hoje em dia, como é o caso de ensinar de português, aplicado a práticas letradas específicas oriundas das tecnologias digitais.
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