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EM REVISTACOLUNAS — POLÍTICAS PÚBLICAS DE LEITURA: UMA CARTOGRAFIA INCONCLUSA...

Políticas públicas de leitura: uma cartografia inconclusa

Clecio Bunzen*


Um dos grandes desafios para quem estuda as práticas de leitura em espaços públicos (escolares ou não escolares) é compreender as maneiras, os locais e os objetos culturais usados pelos diferentes sujeitos. Tais práticas são heterogêneas, singulares e híbridas. Por isso, torna-se uma tarefa extremamente difícil percorrer as trilhas e os caminhos da relação das pessoas com os textos (literários e não literários) em tais espaços. Constitui ainda um desafio mapear as ações, os projetos e as instituições que procuram promover a leitura entre crianças, jovens e adultos. Ao conversar com diferentes mediadores, percebo que conhecemos muito pouco sobre: as políticas públicas de leitura no Brasil e no mundo; os investimentos para promoção do livro e da leitura em espaços públicos (escolas e bibliotecas, por exemplo); e a história e o próprio funcionamento dessas políticas.


O desafio deste texto é justamente trazer alguns exemplos de políticas de leitura no âmbito nacional e internacional (especialmente na América Latina) para que possamos refletir sobre o fato de que há um desconhecimento sobre uma ação que nos parece global e que ultrapassa as políticas federais, estaduais e municipais brasileiras. Uma política pública de leitura envolve a articulação de diferentes esferas do poder público para a democratização de determinados benefícios, induzindo determinadas práticas de letramento por meio da compra de bens culturais (BARBOSA; NORONHA, 2014).


Para iniciar nossa conversa, cito brevemente dois exemplos nacionais: os Faróis do Saber, da cidade de Curitiba (PR), e os Faróis da Educação, do estado do Maranhão. O primeiro foi implementado em 1994 e faz parte de uma rede de bibliotecas comunitárias em vários bairros de Curitiba, apoiando as ações das escolas municipais e possibilitando o acesso ao livro e a práticas de lazer para diferentes comunidades. O modelo de Curitiba inspirou a experiência no Maranhão, que funciona em alguns municípios como o “único espaço de leitura da cidade” (COSTA, 2013). Apesar das semelhanças físicas, o modo de funcionamento, a gestão, a constituição dos acervos e os problemas dos dois programas são bem diferentes. Enquanto os Faróis do Saber possibilitam maior acesso aos leitores, os Faróis da Educação enfrentam inúmeros problemas para garantir os serviços de formação de leitores, tais como falta de recursos públicos para contratação de funcionários, atualização do acervo e possibilidade real de empréstimo das obras.  


Existem também inúmeros projetos da sociedade civil, realizados por pessoas físicas e jurídicas em bibliotecas comunitárias ou ambientes sociais diversos de promoção da leitura. Na região metropolitana de Recife (PE), acompanho o trabalho da Releitura – Bibliotecas Comunitárias em Rede, observando os desafios, o potencial e as estratégias para a (re)construção de comunidades de leitura em parceria (ou não) com as escolas públicas das comunidades e outras ações dos municípios. Apesar de conviverem na mesma metrópole, apresentam disposições, recursos humanos e apoio da comunidade nacional e internacional de maneiras bem diferenciadas. Na pequena e aconchegante Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabajares, na periferia de Recife, as crianças participam da leitura de livros literários em francês. Essa prática de letramento é possibilidade pelas redes das políticas de leitura, uma vez que há uma parceria entre a biblioteca comunitária recifense e a biblioteca da comunidade Malakoff, em Nantes (França), habitada por muitos imigrantes ou descendentes de árabes e africanos. Por meio da troca de cartas, vídeos e livros, as crianças dos dois países apropriam-se de diferentes narrativas, costumes e culturas.


Políticas de leitura em outras paragens
Em alguns países, percebemos uma agenda de políticas públicas voltadas para a leitura, que inclui definições claras dos maiores problemas sociais, formulação de novas políticas, assim como implementação de espaços de leitura e de acervos específicos. Em outros, a situação ainda é bastante precária. Na Guatemala, por exemplo, apesar de possuir população bastante heterogênea (maias, garifunas, xincas e criollos) e diversas línguas, há ainda pouco incentivo a produção, divulgação e políticas de leitura para as crianças, segundo Frieda Barco, em comunicação oral sobre literatura infantojuvenil na Guatemala no XI Jogo do Livro, que aconteceu na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em novembro de 2015.  Conforme a pesquisadora, a literatura infantil na Guatemala “não chega à criança, pois é um mercado de souvenir”.


Já no Chile, o programa nacional de leitura está vinculado fortemente ao Centro de Recursos para el Aprendizaje (CRA), que valoriza as bibliotecas escolares, disponibilizando materiais impressos (enciclopédias, dicionários, livros, jornais e revistas), assim como audiovisuais e jogos didáticos. As escolas recebem uma verba para assinar cinco ou seis jornais ou revistas de seu interesse; dessa forma, a autonomia escolar é favorecida, visto que cada instituição define as publicações que deseja ter em seu acervo.



Na Argentina, encontramos a Biblioteca Nacional de Maestros (BNM), que dispõe de diferentes espaços (salas) dedicados a funções específicas: acervo geral, hemeroteca, espaço de mídias para consulta de vídeos educativos, bem como para bens e obras raras.


Nos municípios da Colômbia, o Plan Nacional de Lectura (PNL)Mil Maneras de Leer objetiva descentralizar as ações do Ministério da Educação, fortalecendo as ações locais. Ou seja, as secretarias de Educação dos municípios precisam organizar programas e projetos relacionados à leitura. O PNL tem incentivado também a leitura literária e de livros escolares em crianças e jovens com o objetivo de promover o uso das bibliotecas públicas colombianas.


No México, na cidade de Puebla, encontramos um grande incentivo à criação de bibliotecas para bebês, ou seja, um espaço de leitura para crianças pequenas. Lá localizamos em uma universidade pública um espaço dedicado a promover práticas de leitura para crianças na Biblioteca Infantil e na Bebeteca, na Biblioteca Central Universitária da Benemérita Universidad Autónoma de Puebla (Buap). Tais ações têm incentivado a criação de espaços semelhantes em universidades brasileiras, como a biblioteca para a primeira infância dentro da Biblioteca da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).


As políticas públicas de leitura nacionais e internacionais brevemente descritas aqui são ações coletivas que visam garantir o direito da leitura como um compromisso público, transformando muitas vezes aquilo que é para poucos (privado) em ações coletivas no espaço público (GUARESCHI et al, 2004). Não existe um mapeamento de todas as políticas que possibilitam às crianças o acesso a diferentes materiais de leitura e escrita. No entanto, qualquer esforço nessa direção trabalhará sempre com uma cartografia inconclusa, da mesma forma que o dicionário não consegue “capturar” todas as palavras e expressões de uma língua.


As formas de apropriação e consumo dos textos são dinâmicas, assim como as maneiras que os diferentes grupos sociais e culturas têm utilizado para garantir a disponibilidade e o acesso à cultura escrita em diferentes campos, espaços/territórios, âmbitos e organizações. Torna-se, por isso, impossível elaborar um mapa detalhado de todas as ações realizadas nos últimos anos. Ao mesmo tempo, é importante que cada um busque construir uma cartografia inconclusa no intuito de ressaltar a diversidade de políticas de leitura no âmbito internacional e nacional. E que possamos, no futuro, construir uma rede para trocarmos experiências.


_________________________________
Referências:
BARBOSA, Tatyana; NORONHA, Claudianny. Políticas públicas de leitura: o que saber para um novo fazer na escola. Natal: EDUFRN, 2014.
COSTA, Cristiane Dias Martins da. Faróis da Educação e os desafios da formação de leitores no Maranhão. 216 f. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2013.
GUARESCHI, N. et al. Problematizando as práticas psicológicas no modo de entender a violência. In: STREY, M. N.; AZAMBUJA, M. P (Org.). Violência, gênero e políticas públicas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.


*Mestre e doutor em Linguística Aplicada pela Unicamp, é professor adjunto do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Atua como membro do Centro de Estudos em Educação e Linguagem (Ceel) da UFPE, especialmente no âmbito do projeto de Mediadores de Leitura (Pnaic-Ceel). Tem pesquisado e orientado pesquisas sobre o ensino de língua materna e as políticas públicas de letramento. Coorganizou os livros Português no Ensino Médio e formação de professores (2006) e Múltiplas linguagens no Ensino Médio (2013), ambos pela editora Parábola.



Tô na Rede: parceria em prol da inovação nas bibliotecas públicas (Para Aprofundar)
Gláucia Mollo: A biblioteca e seu papel na sociedade contemporânea (Entrevista
Letramento e bibliotecas escolares no Ensino Fundamental (Reportagem
Material pedagógico do Projeto Entre na Roda trabalha a leitura na infância (Notícia)  

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