Reportagem: Mônica Cardoso
Design: Thiago Luis de Jesus
Ilustrações do jogo: Edson Pelicer
Produção: Fernanda Ribeiro e Tamara Castro
Coordenação geral: José Alves

A língua nas margens: multilinguismo e letramento indígena

Responda rápido: quantos idiomas são falados no Brasil? Se você pensou apenas no português, saiba que o Brasil apresenta uma imensa variedade linguística. Com cerca de 210 línguas, é o 8º país em número de idiomas falados. Além do português, há línguas e dialetos falados por povos indígenas e por comunidades de descendentes de escravizados e de imigrantes europeus, como italianos e alemães. Nesta reportagem, abordando pela primeira vez uma perspectiva bastante nova no cenário educacional, o multilinguismo, focaremos as línguas indígenas.

Atualmente, 274 línguas indígenas são faladas no país, de acordo com o Censo de 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No entanto, os povos indígenas apenas conquistaram seus direitos linguísticos com a Constituição Federal de 1988. O artigo 210 prevê o uso dos idiomas maternos, juntamente com a língua portuguesa, na aprendizagem escolar.

Antes disso, a educação bilíngue promovia a alfabetização dos indígenas na língua materna e, gradativamente, substituía seu uso pelo português no processo escolar. Essa metodologia pedagógica na qual o idioma de origem é usado como ponte para o domínio da língua nacional é chamada de bilinguismo de transição ou de subalternização. Além de impor o monolinguismo em língua portuguesa, esse processo acelerava a integração à sociedade não indígena, já que, ao deixar de falar a sua língua, o indígena abandonava sua identidade étnica, seu modo de vida e sua visão de mundo.

Lynn Mario Menezes de Souza

“A educação dos indígenas era realizada por missionários protestantes e católicos, como a organização norte-americana Summer Institute of Lingustic (SIL), trazida pelo governo brasileiro na década de 1950, que propunha a educação por meio da tradução da Bíblia. Mais tarde, a educação indígena ficou a cargo da Fundação Nacional do Índio (Funai). Pressupunha-se que os povos indígenas eram culturalmente deficitários e precisavam ser assimilados. Com a Constituição de 1998, essa visão se modificou e as culturas, os saberes e as línguas indígenas foram reconhecidos”, avalia Lynn Mario Menezes de Souza, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP).

A partir de então, a educação escolar indígena passou a ser competência do Ministério da Educação (MEC), que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena na Educação Básica com o objetivo de normatizar os direitos educacionais dos povos indígenas e orientar as secretarias municipais e estaduais de Educação para elaboração de projetos nas escolas.

Rita Potyguara

“O direito à educação diferenciada, própria a cada povo e comunidade, deve ser efetivado pela elaboração de projetos pedagógicos com autonomia, currículos que atendam às necessidades e aos interesses de sustentabilidade socioambiental e oferta de materiais didáticos e paradidáticos de autoria indígena que abordem os conhecimentos indígenas. O letramento indígena deve ser feito com base nesses conhecimentos, contextualizando suas realidades socioculturais. Assim, a aquisição da escrita se dá com base nas experiências das crianças, em aprendizagens vivenciadas em sua comunidade: participando de rituais, de atividades socioeconômicas, escutando narrativas tradicionais de pessoas mais velhas da aldeia, brincando, observando. Essas abordagens tornam a experiência de aprendizagem significativa, imersa nos valores culturais e nas relações sociais que vivenciam”, explica Rita Potyguara, diretora de Políticas de Educação do Campo, Indígena e para as Relações Étnico-Raciais do MEC.

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Escolas indígenas

O ensino-aprendizagem dos idiomas indígenas como línguas de instrução e comunicação nas escolas deve acontecer juntamente com a língua portuguesa, de acordo com as realidades sociolinguísticas de cada povo e comunidade, que são bastante heterogêneas. Existem populações monolíngues (falam apenas a língua de origem ou somente o português, após a perda da língua materna), bilíngues (falam tanto a língua indígena como o português), ou ainda plurilíngues (falam mais de quatro idiomas indígenas e o português, além da língua predominante na fronteira, que pode ser espanhol, francês ou inglês).

Escolas indígenas: distribuição de estudantes por nível de ensino (educação básica)*

* 3.130 escolas indígenas atendem a 239.665 alunos. Fonte: INEP. Censo Escolar de 2014.

A maioria dessas escolas se localiza em territórios indígenas ocupados tradicionalmente, estando regularizados ou não. Mas há também escolas indígenas em áreas urbanas, como em São Paulo, Porto Alegre, Manaus e Campo Grande. Cada escola elabora seu projeto pedagógico, definindo o currículo, que deve contemplar temas e conteúdos relativos a ciências e saberes indígenas, territorialidade, gestão ambiental e relações interétnicas, como direitos, cidadania, sociodiversidade e organização política do Brasil, além de temas que interessam a cada comunidade. O calendário escolar também deve ser diferenciado, levando em conta as peculiaridades de cada aldeia, como produção e colheita de acordo com as estações do ano.

A autonomia pedagógica e organizacional de cada escola indígena é, aliás, um dos maiores desafios na educação. “As escolas indígenas devem valorizar os saberes, a oralidade e a história de cada povo em diálogo com os demais saberes produzidos por outras sociedades humanas, tanto indígenas como não indígenas. Os projetos e as práticas curriculares devem ser organizados por eixos temáticos, projetos de pesquisa, eixos geradores ou matrizes conceituais, em que os conteúdos das diversas disciplinas podem ser trabalhados numa perspectiva interdisciplinar. Esses currículos devem ser apoiados por materiais didáticos específicos e bilíngues, escritos nas línguas portuguesa e indígenas”, avalia Rita Potiguara, do MEC.

A dimensão oral da língua é fundamental na identidade e cultura indígena, por ser a principal maneira de transmitir saberes e práticas entre as gerações.

 

À esquerda, Luís Donisete Benzi Grupioni

Os povos indígenas são tradicionalmente agráfos, sem escrita. A educação das crianças é realizada por meio da narração de histórias e mitos. Para ser mais eficaz, o letramento, assim como as demais etapas do ensino-aprendizagem, deve tomar a cultura e a tradição dos povos indígenas por referência. Por esse motivo, a tradição oral sempre deve ser valorizada nas escolas indígenas. Uma estratégia interessante é contar com a presença de pessoas da própria comunidade na sala de aula para a narração de histórias.

Luís Donisete Benzi Grupioni, coordenador do Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé).

“Não se pode falar em educação intercultural sem discutir sua etapa primeira: a alfabetização intercultural.”
Leia mais na entrevista com Josélia Gomes Neves, especialista em educação indígena.

Experiências em escolas indígenas

ESCOLA ESTADUAL PENHA MINTNGWE NIMBOEA – UBATUBA (SP)

Para o professor Cristiano Kirindju, a escola indígena é capaz de unir dois universos: indígenas e não indígenas. Formado em Pedagogia pela Universidade de São Paulo (USP), ele leciona na escola da Aldeia Renascer, ou Ywyty Guaçu, localizada em Ubatuba (SP). No local, 36 alunos, de 6 a 17 anos, são alfabetizados em guarani e português. O material didático para alfabetização e letramento usado na escola é produzido pelos próprios indígenas com supervisão de um linguista especializado. “A língua indígena sofreu muito com o passar do tempo, foi descaracterizada e extinta. Além do português, é importante alfabetizar em guarani para cultivar a língua materna e adaptar as duas tradições aos jovens. Muitas matérias são passadas aos alunos tanto em português, quanto em guarani. Os mais velhos dessa população se comunicam no idioma indígena; os jovens precisam estar adaptados para os dois universos para conviver bem em ambos”, diz Cristiano. Assim como os alunos, todos os professores são indígenas, justamente para manter e reforçar sua cultura e seus costumes. Para valorizar a identidade, a escola promove aulas de canto, dança, plantio, artesanato e conhecimento de ervas medicinais.

Escola Estadual Dom Pedro Massa – São Gabriel da Cachoeira (AM)

São Gabriel da Cachoeira é o município mais indígena do Brasil. Mais de 90% da população é indígena. Para se ter uma ideia, a Escola Estadual Dom Pedro Massa atende 415 alunos de 12 etnias, entre elas Karapanã, Tuyuka e Mirity-tapuya. Eles cursam o Ensino Fundamental, Médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA), onde têm aulas em português e tukano. “A escola é uma forma de resgatar a nossa identidade e cultura. Antes, as escolas eram de missionários, que proibiam falar as línguas indígenas. Por conta disso, a maioria dos alunos não fala a língua materna nem conhece os saberes indígenas”, conta a diretora Maria Anacleide Penha Barreto, que é da etnia Tukano. Esse resgate passará inclusive pelo nome da escola, que vai se chamar E. E. Indígena. Ye’parã Mahsã Bue'ri Wií (ye’parã mahsã significa “povos do triângulo tukano” e bue´ri wí'i significa “escola”). A escola está organizando seu projeto político pedagógico e deve incluir novas disciplinas ao currículo, como Direitos Indígenas, Ciências e Saberes Indígenas, História e Historiografia Indígena.

Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Bento Pĩ Góg – Tenente Portela (RS)

Além de Matemática e Ciências, a grade curricular da escola inclui disciplinas voltadas para a cultura Kaingang, como Língua, Valores Culturais e Artes. Em alguns meses do ano, a merenda fica ainda mais especial com o acréscimo de plantas nativas comestíveis. A escola atende 164 alunos, do Ensino Infantil e Fundamental, com idades de 4 a 16 anos. A escola é bilíngue, mas a alfabetização é realizada em português, língua que é dominada pela maioria dos moradores da aldeia, localizada Terra Indígena do Guarita, maior reserva indígena do Rio Grande do Sul. “O bilinguismo é importante porque ajuda a manter a língua falada e ensina a escrita, que muitos não conhecem, como os kofá (membros mais velhos)”, diz a professora e vice-diretora Sueli Krengre Candido, que ensina o idioma Kaingang. Assim como ela, formada em Licenciatura Intercultural Indígena pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), muitos professores indígenas estão buscando cursos de nível superior. “A escola é essencial para o progresso destes povos, pois ajuda os alunos a pensar na importância, melhoria e manutenção de nossa cultura. É na escola que eles aprendem os direitos e deveres perante a Constituição”, acrescenta.

Escola Indígena Estadual Central Ikpeng – Feliz Natal (MT)

Localizada no Parque Indígena do Xingu, a escola abriga 186 alunos, a maioria da etnia Ikpeng. Ali, eles cursam o Ensino Fundamental, Ensino Médio e Profissionalizante em Agroecologia. “No começo, os alunos são alfabetizados na língua materna e depois em português. É importante falar a língua indígena para valorizar a própria cultura e a língua portuguesa para defender seus direitos e formar o jovem para o mercado de trabalho, para que ele possa voltar e atender a comunidade. Formamos alunos como cidadãos indígenas e brasileiros”, diz o professor Maiua Meg Poanpo Txicão. As aulas incluem conteúdos tradicionais indígenas como artesanato, caça e música. Os professores também são indígenas da mesma comunidade. “Eles conhecem nossa realidade e cultura, além de valorizar a educação do povo como era antigamente”, acrescenta Maiua.

Escola Municipal Indígena Polo General Rondon – Aquidauana (MS)

Com 340 alunos no Ensino Infantil e Fundamental, a escola se tornou o centro na aldeia Bananal. “A escola para nós, indígenas, se tornou um meio de articulação e diálogo para as conquistas que almejamos para a nossa comunidade. Os professores são vistos como lideranças da aldeia, sempre participando das decisões”, diz Dalila Luiz, diretora da escola. No entanto, ela considera que o ensino bilíngue em português e Terena ainda é um desafio. “Acredito que os indígenas deixaram de falar a língua materna por causa da discriminação. Muitos pais obrigam os filhos a falar apenas o português, dizendo que é uma língua bonita. Nesta semana, o pai de um aluno me disse que não quer que o filho aprenda a escrever nossa língua, mas apenas o português”, conta Dalila. Além das aulas de língua, arte e cultura Terena, a escola procura manter a parceria com os mais velhos da comunidade. “Eles podem não ter o conhecimento científico, mas guardam os conhecimentos tradicionais”.

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Formação de professores

Os professores das escolas indígenas devem ser, preferencialmente, indígenas e oriundos das comunidades onde se localizam as escolas, pois compartilham do patrimônio cultural, histórico e linguístico da comunidade, de acordo com as Diretrizes. “Um professor indígena conhece as concepções e os conceitos da comunidade. Para as aulas de Geografia, por exemplo, ele conhece a vegetação, os rios e os tipos de solos do local onde a comunidade vive. Além disso, ele sabe os fatos históricos, os mitos de origem e as regras de convivência entre as pessoas. Isso fortalece a cultura, os valores e a própria língua, garantindo autonomia para cada povo”, analisa Maria Cristina Troncarelli especialista em educação escolar indígena. De 1994 a 2005, ela atuou como coordenadora pedagógica do curso Urucum Brilhante, voltado para a formação de professores de comunidades do Parque Indígena do Xingu (MT), promovido pelo Instituto Socioambiental (ISA).

Maria Cristina Troncarelli

“Os alunos indígenas têm uma forma singular de aprender e ensinar. Meu trabalho era despertar nesses futuros professores a curiosidade como pesquisadores de sua própria cultura e conhecimento do seu povo. Eles se tornaram autores do material didático de suas escolas, pesquisando e aprendendo com o conhecimento dos mais velhos da aldeia. Eles se apropriaram da etnografia e se redescobriram como criadores, na língua indígena e no português. Minha alegria era ver uma criança que alfabetizei assumir seu papel de forma muito mais eficaz do que eu poderia fazer. O professor é visto com respeito pela comunidade, como um aprendiz de tradições”, conta Maria Cristina.

Para atuar como professores nas escolas em suas aldeias, muitos indígenas buscam a formação universitária. Atualmente, 21 instituições de ensino superior oferecem cursos de Licenciatura Intercultural Indígena − 14 federais, 5 estaduais e 2 institutos federais, em 16 estados. Com o objetivo de criar uma universidade indígena, o MEC constituiu, no ano passado, um grupo de trabalho composto por indígenas, professores e pesquisadores de universidades. As propostas do grupo estão sendo consolidadas e serão apresentadas ao ministro da Educação.

A Universidade Federal de Roraima (UFRR) foi a primeira instituição federal de nível superior a implementar cursos de graduação para a formação de indígenas. O Instituto Insikiran, vinculado à UFRR, oferece cursos de formação para professores indígenas, que aliam os ensinamentos tradicionais às questões pertinentes à realidade indígena atual. Os alunos são de várias etnias, como Macuxi, Wapixana, Taurepang e Yanomami.

Celino Raposo

“Nas primeiras aulas, os alunos não aceitavam cantar e dançar, o que é parte da cultura indígena. Hoje, eles assumem suas raízes e são conscientes da importância dos indígenas como protagonistas da sua história. Ter professores indígenas é uma maneira de preservar a identidade, pois nós estamos perdendo a nossa cultura e até os territórios onde vivemos”, avalia o professor Celino Raposo, que é Macuxi, povo que vive na Terra Indígena Raposa Serra do Sol (RR) e cujas terras são ameaçadas pela presença de fazendeiros agropecuários. Segundo ele, as escolas indígenas garantem a fixação dos indígenas nas aldeias, evitando a migração para as cidades, onde serão discriminados e viverão em condições precárias.

Língua viva x Língua morta

Alíngua é a própria identidade de um povo. Nesse caso, as escolas bilíngues podem ser uma alternativa para perpetuar os idiomas indígenas, ameaçados de extinção. “O aprendizado das línguas indígenas na escola pode proteger e promover os usos dessas línguas minoritárias perante a língua portuguesa, sem que uma seja considerada superior à outra. Todas as línguas indígenas no Brasil se encontram em risco de extinção e seu uso nas escolas pode trazer a revitalização e modernização com a criação de novos léxicos, a adoção da escrita da língua em materiais didáticos e paradidáticos de autoria indígena e a produção de vídeos para valorização do uso oral”, diz Rita Potiguara, do MEC.

Veja, no mapa a seguir, as famílias linguísticas e a localização geográfica de seus falantes. ... Povos Indígenas no Brasil Mirim/Instituto Socioambiental. Clique no mapa para ampliar.

As estimativas dão conta de que o Brasil abrigava em torno de 1.175 línguas em 1.500. Hoje, 274 línguas indígenas são faladas por 305 etnias, de acordo com o IBGE, o que significa que muitos povos já não falam seu idioma de origem e cerca de mil línguas foram extintas. Estes números são muito otimistas, pois é consenso entre os linguistas que as línguas indígenas não ultrapassam a marca de 160. Além disso um quarto delas está em risco de extinção, pois são faladas por um número reduzido de pessoas e, muitas delas, idosas.

Hein van der Voort

“As línguas indígenas estão em perigo de extinção por causa da onipresença da língua portuguesa. Frequentemente, o português é a língua padrão nas escolas porque não há material didático em línguas indígenas e os próprios professores não as falam ou até proíbem seu uso. Como consequência, a língua portuguesa toma o lugar dos idiomas indígenas”, avalia o linguista Hein van der Voort, pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi. Segundo ele, mais de um terço das 25 línguas indígenas faladas pelas comunidades em Rondônia têm menos de 10 falantes, como Oro Win, Kanoê e Arikapú.

A diversidade linguística do Brasil, além de impressionante, representa uma herança de populações que começaram ocupar o continente sul-americano há mais de 13 mil anos. As línguas indígenas podem se adaptar a novas situações, adotando empréstimos de outras línguas, como o português, ou desenvolvendo a tecnologia da escrita e ganhando novos usos, como a comunicação nas redes sociais. “Todas as línguas humanas são iguais em sua capacidade de serem meios de expressão e comunicação. Os idiomas indígenas não são incompatíveis com a chamada ‘modernidade’ e a sua extinção não contribui para nenhum ‘progresso’. Muito pelo contrário, a perda de uma língua causa sofrimento a um povo e contribui para a sua desintegração. Quando se perde uma língua, perde-se uma herança intelectual, artística e histórica de todo um povo, única e insubstituível”, analisa van der Voort.

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Narrativas indígenas

Eliane Camargo

Lançado em 2014, o livro Huni kuin hiwepaunibuki – A história dos caxinauás por eles mesmos (Edições SESC) reúne 25 narrativas referentes à vida desse povo. Ocupando um vasto território na bacia dos rios Juruá e Purus, entre o Brasil e o Peru, os caxinauás totalizam uma população de aproximadamente oito mil pessoas – 75% dos quais habitam terras brasileiras.

A obra, organizada pela linguista Eliane Camargo e pelo antropólogo Diego Villar, traz relatos transcritos pelos próprios indígenas, que revelam traços ricos da cultura, língua e estrutura de pensamento caxinauás. A publicação, trilíngue (caxinauá, português e espanhol), conta com um vasto material iconográfico e retrata desde o modo de vida dos antepassados, até o convívio em uma sociedade não indígena.

A seguir, Eliane Camargo conta como nasceu a ideia de escrever esse livro, os principais desafios no processo, e na alfabetização e no letramento indígena em geral.

Plataforma do Letramento: O fato de trazer as vozes dos próprios caxinauás, apresentando as histórias de vida desse povo, é um grande diferencial do livro Huni kuin hiwepaunibuki ─ A história dos caxinauás por eles mesmos. Como nasceu a ideia de escrever essa obra?

Eliane Camargo: Em 2008, dentro de um projeto de documentação de cultura e língua caxinauá (Programa Documentação de Línguas Ameaçadas − em alemão “Dokumentation bedrohter Sprachen” − Dobes − Fundação Volkswagen), uma pequena equipe de jovens adultos caxinauás começou a transcrever gravações feitas por mim e pela antropóloga Barbara Keifenheim. Ao longo desse processo, os participantes começaram a fazer comentários sobre o que transcreviam e em um momento me questionaram: "Dá para você imprimir essas histórias para a gente ter na aldeia?" Um deles ainda disse: "Não dá para fazer um livro para a gente?" Eu respondi que fazer um livro não é só imprimir, requer reflexão: para quem e para que estamos escrevendo? O que reunir? E como transcrever essas narrativas orais? Escrever exige pensar naquele que vai ler: ele vai entender? Será captado pelo enredo? Escrever um livro é pensar em um livro e naqueles que o terão entre as mãos. Não é apenas uma cartilha, é mais que isso. Daí foram alguns anos para adaptarem a transcrição do oral, encontrando algumas regras de ortografia. Como continuaram a transcrever textos, o número inicial, de 8 narrativas, passou para 15. Ao chegarem a 25 narrativas selecionadas, intervi dizendo: “Agora está bom. Vamos tentar nos concentrar nessas histórias, como agrupá-las, ver o que têm em comum e, sobretudo, o porquê dessa seleção. Trabalhamos o conceito de livro, de leitura e a complexidade de um trabalho trilíngue (caxinauá, português e espanhol).

PL: Quais foram os principais desafios e cuidados no desenvolvimento desse trabalho, especialmente em relação à língua?

EC: O principal desafio e cuidado foi refletir sobre as distinções entre o oral e o escrito. Para isso, foi necessário dar vários exemplos de como se fala ou escreve determinada coisa ou ideia em espanhol ou português. Foi fundamental mostrar que a escrita, a letra são convenções. Nessa discussão, os caxinauás que vivem no Peru começaram a questionar o alfabeto convencionado para a transcrição do seu idioma. Essa discussão se intensificou e, em 2011, esse grupo propôs uma reforma, que foi acatada pelo Ministério da Educação peruano. Para essa reforma, estudamos o sistema fonológico do idioma em caxinauá. Ao compreender que a língua é regida por regras internas, eles mesmos se deram conta dos diferentes problemas existentes na escrita. Do lado brasileiro, essa mudança tem se mostrado mais delicada. Os caxinauás do lado brasileiro aplicam regras de fonética na escrita. Como as regras são várias, mantivemos aquelas que eles assimilaram melhor. Por exemplo, não foram levadas em conta as regras de fusão vocálica ou consonantal e apenas algumas de nasalidade foram assimiladas. Vejamos um exemplo de fusão vocálica: Baianu en kaai (“vou ao roçado”) escreve-se geralmente Baianu en kai. O morfema direcional -anu inicia-se com a vogal a, que se funde quando posicionada ao lado de outra vogal a. No oral, a junção a-a se funde, como em kaai: −ka (verbo “ir”) seguido por -ai (forma indicadora de tempo presente), pronuncia-se como kai [kaj]. Na escrita, é fundamental a anotação seguir normas linguísticas para que o leitor possa entender o funcionamento interno da língua. Não basta falar e escrever o que bem entende, com aquela filosofia de que a língua é do grupo e este escreve como quer. A língua também requer regras. A escrita é uma convenção, mas ela segue regras ditadas pela estrutura interna da língua. Essa estrutura não é aleatória. Não dá para brincar de educação em contexto indígena, ela deve ser repensada e readaptada a cada realidade linguística.

PL: A política educacional adotada pelo Ministério da Educação (MEC) atualmente se baseia em um paradigma de respeito à interculturalidade, ao multilinguismo e à etnicidade (preceitos legais estabelecidos na Constituição de 1988, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e no Plano Nacional de Educação). É possível observar consequências efetivas desse novo paradigma na educação indígena, especialmente em se tratando da alfabetização e do letramento dessas populações?

EC: Não estou muito inserida nas metas do MEC, mas posso expressar que o paradigma de respeito à interculturalidade, ao multilinguismo no Brasil deve começar (e com urgência) nas escolas do país inteiro. O povo brasileiro precisa ter mais informação sobre culturas minoritárias, conhecer melhor seus valores socioculturais e linguísticos e desenvolver a consciência de que esses povos contribuem para riqueza cultural e linguística do Brasil. Em relação ao trabalho com as línguas indígenas, acredito que poucos idiomas estão sendo tratados seriamente, pois os antropólogos, linguistas e outros especialistas que atuam com esses povos usam muito a base fonética, ou meio fonética, meio fonológica. Não conhecem regras de morfofonologia, de ortografia e, muitas vezes, nem mesmo regras gramaticais em geral. O problema maior é que as letras do alfabeto são pronunciadas em português! Não há uma reflexão sobre como o professor soletra as letras na língua indígena.

PL: Além do ensino-aprendizado da língua portuguesa, na perspectiva do multilinguismo, atualmente há projetos envolvendo também o letramento em outras linguagens, como produção de rádio, vídeo, fotografia, games. Qual é a importância de associar múltiplas linguagens no letramento desses povos?

EC: Acho excelente. A estética é primorosa junto aos ameríndios (veja a pintura corporal, os ornamentos, o grafismo nas panelas). Eles se adaptam muito rapidamente às novas tecnologias sobretudo quando a oralidade é valorizada, como no caso do rádio, da internet, do video. Em escolas, desenvolver a parte digital (por meio de vídeos, portais na internet etc.) talvez seja um bom caminho não só para dinamizar o aprendizado da língua, como também para conhecer virtualmente outras culturas, abrir o horizonte de conhecimento. Mas a presença dos livros parece-me ainda fundamental.

Midiateca

O curso de Tupi Antigo e Língua Geral (Neengatu) é elaborado por Eduardo Navarro, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e autor do Método moderno de Tupi Antigo, do Dicionário de Tupi Antigo e do curso de Língua Geral (Nheengatu ou Tupi Moderno). A proposta é ensinar o Tupi Antigo, a velha língua brasílica dos primeiros dois séculos de colonização do nosso país, apresentando os fundamentos desse idioma e como ele está presente na língua portuguesa e na geografia do Brasil.

O Leetra é um grupo de pesquisas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR – SP) voltado à compreensão dos processos sóciocognitivos e discursivos inerentes às práticas de linguagem, com ênfase na transição implícita na apropriação da língua escrita e nas questões de identidade e pessoalidade relacionadas. Enfatiza os conceitos de multiculturalismo, etnicidade, fronteira e tradução. O grupo publica também a revista Leetra indígena, em que divulga as ações que estão sendo realizadas no Pnaic/UFSCar. Na biblioteca do site, é possível baixar todas as edições da revista.

O site Povos Indígenas no Brasil, do Instituto Socioambiental (ISA), apresenta informações sobre os povos e a temática indígena. Criado com o propósito de reunir informações e análises de todos os povos indígenas que habitam o território brasileiro, além de textos, tabelas, gráficos, mapas, listas, fotografias e notícias sobre a realidade desses povos e seus territórios, este site, que em 2012 completou 15 anos, vem sendo repensado e aprimorado pela extensa rede de colaboradores, voluntários, do programa Povos Indígenas no Brasil. Atualmente, tem por objetivo não apenas “colocar os índios no mapa do Brasil”, mas também apoiá-los em seus projetos.

O que é multilinguismo? Os povos indígenas sempre conviveram com situações de multilinguismo. Isso quer dizer que o número de línguas faladas por um indivíduo pode variar bastante. Há aqueles que falam e entendem mais de uma língua ou que entendem muitas línguas, mas só falam uma ou algumas delas. Em uma mesma aldeia, é possível haver indivíduos que só falam a língua indígena, outros que só falam a língua portuguesa e outros ainda que são bilíngues ou multilíngues. Leia o texto adaptado de Aryon Dall´Igna Rodrigues (Línguas brasileiras: para o conhecimento das línguas indígenas. São Paulo: Loyola, 1986) no site do Instituto Socioambiental (ISA).

Como se escrevem os nomes dos povos indígenas? Por não possuírem escrita alfabética durante a colonização, os nomes desses povos foram e continuam sendo escritos por não indígenas, em um processo que deu (e ainda dá) margem a muitas confusões em termos de grafias e significados. Nas últimas décadas, com o desenvolvimento de projetos na área de educação escolar indígena, alguns povos estão aprendendo a escrever na sua própria língua, e assim começam a criar, junto com linguistas, uma grafia própria.

“No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é.” Leia entrevista com Eduardo Viveiros de Castro, professor de Antropologia no Museu Nacional (RJ) e especialista em Etnologia brasileira, publicada no livro Povos Indígenas no Brasil 2001/2005. Nessa conversa, o especialista discute duas questões polêmicas: quem é índio? E o que define o pertencimento a uma comunidade indígena?

O Dicionário Ilustrado Tupi-Guarani tem a missão de divulgar e valorizar a cultura brasileira, entendendo que milhares de palavras de origem indígena, em especial oriundas das línguas pertences à família Tupi-Guarani, foram incorporadas à cultura brasileira e fazem parte de nosso cotidiano sem nos darmos conta de origem. O dicionário, obra em constante aperfeiçoamento e aberta à participação dos usuários, busca resgatar a origem e dar maior visibilidade a essas palavras.

A publicação Povo Guarani: um grande povo! mostra o papel dos Guaranis em nossa história e cultura, além de trazer informações estatísticas e a localização de grupos dessa etnia na América do Sul. Apresenta também peculiaridades de sua organização socioeconômica e a difícil realidade que enfrentam em decorrência da invasão de suas terras.

Treze línguas indígenas ameaçadas de extinção são documentadas em áudio e vídeo pelo Projeto de Documentação de Línguas Indígenas (Prodoclin), do Museu do Índio (Fundação Nacional do Índio − Funai), em parceria com a Unesco. Dez delas ganharam gramáticas descritivas básicas e um banco de dados que poderá resultar em dicionários. O projeto também deu início à produção de cinco gramáticas pedagógicas para uso em escolas indígenas do país. O trabalho, coordenado por linguistas, contou com a colaboração de indígenas que receberam capacitação e auxílio financeiro para atuar nas suas próprias comunidades.

No blog Maxakali/Tikmũ'ũn, é possível acompanhar as ações do Projeto Tikmũ'ũn, integrante do Projeto de Documentação de Línguas Indígenas (Prodoclin), Museu do Índio/Funai. Na postagem de 9 de junho de 2013, a colaboradora Sofia Cupertino relata os trabalhos realizados na Aldeia Verde (Ladainha, MG), voltados para a produção de um livro de cantos tikmũ’ũn, escritos na língua maxakali e traduzidos para o português. Em 8 de dezembro de 2011, há uma postagem em maxakali.

No mapa interativo das línguas indígenas (Folha de S.Paulo), é possível localizar as aldeias onde são faladas os idiomas em risco de extinção, classificados segundo a Unesco em: vulneráveis; ameaçadas; sob risco severo; sob risco crítico; extintas.Algumas das línguas contam com informações estatísticas, fotos, glossário e vídeos.

A Rádio Yandê tem como objetivo manter e valorizar a riqueza e a diversidade cultural indígena por meio de em uma rede de comunicação colaborativa e de alcance nacional. A ideia é difundir a cultura indígena na ótica tradicional, mas explorando os recursos das novas tecnologias. A grade de programação é composta de programas informativos e educativos que trazem para o público um pouco da realidade indígena do Brasil, desfazendo antigos esteriótipos e preconceitos ocasionados pela falta de informação especializada em veículos de comunicação não indígenas.

Créditos (imagens e vídeo)

Arquivo pessoal dos entrevistados

Antônio Cruz/Agência Brasil

Marcello Casal Jr/ABr

Tania Rego/Agência Brasil

Índios Munduruku: Tecendo a Resistência - MiráPorã/vimeo