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ACERVOPARA APROFUNDAR — A IMAGEM E A LETRA: ENSAIO SOBRE LITERATURA E ARTES PLÁSTICAS...

A imagem e a letra: ensaio sobre literatura e artes plásticas

“Pintura e literatura, duas expressões de artes que apesar de diferentes, reservam pontos em comum. Quando surgiu a aproximação entre o universo da escrita e o mundo das imagens? Como dois códigos aparentemente tão diversos podem conviver? Qual o papel das artes na representação da realidade?” Com base nesses questionamentos, o artigo traça um breve percurso histórico abordando os principais momentos de encontro entre a literatura e as artes plásticas no cenário brasileiro do século XX, enfatizando as vanguardas modernistas e fazendo uma análise comparada de algumas obras dos períodos.


Como afirma Arlindo Daibert (1995)*, artista plástico e ensaísta, “palavra e imagem sempre estiveram em contato ao longo da história da pintura ocidental, quer através das legendas e das inscrições da pintura medieval ou do primeiro renascimento; quer de maneira mais sutil e dissimulada, nos títulos que acompanham as pinturas, explicitando, ampliando ou restringindo o poder narrativo das imagens”.


A autora deste estudo, Larissa Oliveira, mestranda de Estudos de Literatura da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), cita alguns exemplos de diálogo entre literatura e artes plásticas: o célebre quadro Ceci n’est pas une pipe [Isto não é um cachimbo], do pintor belga Réne Magritte; a relação entre a poesia do surrealista Murilo Mendes e a obra do artista plástico Ismael Nery; os romances de Graciliano Ramos e os quadros de Candido Portinari; ou, em uma mesma obra, como em The Scallop Shell: “Notre avenir est dans l’air” [A concha de vieira: nosso futuro está no ar], de Pablo Picasso.


A relação entre signo verbal e signo visual é muito estudada pela literatura comparada e suas modalidades, entre elas a intersemiótica e suas derivações (visual, gerativa etc.), que buscam a significação, definida no conceito de texto. Este, por sua vez, se define como uma relação entre um plano de conteúdo (o que e como diz) e um plano de expressão (manifestação desse conteúdo em um sistema de significação, que pode ser verbal, não verbal ou sincrético).


Buscando na história a origem da relação entre imagem e palavra, chega-se ao pensador e poeta latino Horácio (65-68 a.C.), que teria sido o primeiro a estabelecer a comparação entre essas duas modalidades artísticas, ao afirmar: “como a pintura é poesia” (HORACIO apud FARIA, p. 65)*. Já no século XVII, o pintor francês Charles Alphonse Du Fresnoy aprofundou essa relação: “Um poema assemelha-se a um quadro; deste modo um quadro deveria também assemelhar-se a um poema… Um quadro é muitas vezes considerado como poesia muda; e a poesia um quadro falante” (WINSATT JR.; BROOKS, 1971, p. 320)*. No Renascimento, o italiano Giotto usava textos bíblicos como inspiração para seus quadros.


Mas, segundo a autora do artigo, o diálogo entre essas duas artes só será discutido abertamente a partir do século XVIII, principalmente por Edmund Burke e Gotthold Lessing: “A pintura é uma arte da imagem, isto é, do espaço, enquanto a poesia é uma arte da linguagem, isto é, do tempo. A pintura e a poesia são, portanto, submetidas a determinações específicas. O que o poeta pode contar nem sempre pode ser mostrado pelo pintor” (LESSING, 1998, p. 96)*.


Já o poeta romântico português Almeida Garret (1904, p. 27)* privilegiou a pintura: “A poesia animada da pintura exprime a natureza toda; a dos versos, porém, menos viva e exata, falha em muita parte na expressão de suas belezas. Que poeta poderia dar uma ideia de Rómulo como David no seu quadro das Sabinas? Que versos nos poderiam fazer imaginar a Divindade como a Transfiguração de Rafael? Que poema nos faria conceber a majestade dum Deus criador dando forma ao caos, e ser ao universo, como a pintura de Miguel Ângelo?”.


Já nas vanguardas modernistas do século XX, a relação entre artes plásticas e literatura se estreita por meio do cubismo, segundo Daibert. “A palavra pintada dos cubistas aparece como representação objetiva da realidade urbana através de fragmentos de jornais, partituras musicais, embalagem de produtos, etc. O jornal atual como metáfora do tempo, da dinâmica dessa nova paisagem. A seleção de palavras retiradas do noticiário acrescentam novas possibilidades de leitura às obras”, reflete Oliveira.


Também o surrealismo apresenta uma fusão entre imagem e pintura. A autora cita como exemplo o poema “Aquarela”, do mineiro Murilo Mendes, cujo modelo são as mulheres retratadas por Ismael Nery: “Mulheres sólidas passeiam no jardim molhado da chuva,/ o mundo parece que nasceu agora,/ mulheres grandes, de coxas largas,/ de ancas largas,/ talhadas para se unirem a homens fortes” (MENDES apud DAIBERT, 1995, p. 90)*.


O artigo tece ainda uma relação entre a obra São Bernardo, de Graciliano Ramos, e a tela Lavrador de café, de Candido Portinari. Segundo a autora, em ambas as obras está presente a contradição moderno-arcaico: tanto em Paulo Honório – protagonista do romance de Ramos – quanto na oposição trem-trabalhador rural, distorcidos pela perspectiva empregada por Portinari, na qual o trem (representando o progresso) aparece pequeno em relação ao trabalhador que segura a enxada (símbolo do modo de produção arcaico). O que aproxima essas duas obras é, sobretudo, o uso de uma linguagem expressionista. Em ambas, a realidade não é objeto de contemplação apenas, sendo representada de forma simétrica e harmônica. Ao contrário, as escolhas de seus autores (seja na linguagem verbal – seleção das palavras, construção das frases, composição dos retratos físicos e psicológicos das personagens –, seja na pictórica – escolha da cor, pinceladas, perspectiva etc.) revelam uma postura ideológica diante da realidade. "É nessa espécie de enfrentamento do real que surge o sentido trágico de sua obra e vemos a expressão de um grito de denúncia", afirma a pesquisadora a respeito de Portinari. O mesmo pode ser dito em relação à obra de Ramos.


* As referências completas estão no artigo. Clique aqui para ler na íntegra.


Referência:
OLIVEIRA, Larissa. A imagem e a letra: ensaio sobre literatura e artes plásticas. EntreLetras, Araguaína (TO), v. 5, n. 1, p. 18-31, jan./jul 2014. Disponível em: http://revista.uft.edu.br/index.php/entreletras. Acesso em: dez. 2014.

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COMENTÁRIO(S)
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NILZA PIERITZNILZA PIERITZ disse em 19/03/2019 12h26
gostaria muito de fazer parte dessa equipe, participando das atividades incríveis que existem nesta página.
TÂNIATÂNIA disse em 15/07/2015 09h41
Excelente texto para aprofundar conhecimentos e enriquecendo aprendizagem.
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