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ACERVOPARA APROFUNDAR — MEMÓRIAS AFETIVAS DE LEITORES-ESCRITORES...

Memórias afetivas de leitores-escritores


Neste trabalho, Rosemar Coenga, doutor em Teoria Literária e Literaturas pela Universidade de Brasília (UnB), investiga  a construção social da infância com base em obras autobiográficas de escritores brasileiros e estrangeiros que focaram esse momento da vida em suas memórias, especialmente as primeiras experiências da criança com a cultura letrada e outras manifestações literárias: cantigas de roda, contos tradicionais orais, poemas e romances, entre outras.


O objetivo do autor é refletir como o sujeito da memória se recorda de sua formação leitora na construção de suas memórias. Para essa investigação, Coenga se baseia em estudos sobre a história e sociologia da leitura, desenvolvidos por autores como Hébrard, Petit, Pennac, Lahire, Chartier e Pompougnac e outros. Com base na sociologia da leitura, busca compreender de que maneira a leitura os afeta, como se desenvolvem suas práticas e trajetos leitores, analisar suas predisposições socioculturais, os significados da leitura e da escrita em seu meio familiar e o papel da escola em sua formação.


Fundamentado nesses estudos, o autor investiga os trajetos de formação como leitores-escritores em obras memorialísticas de autores como José Saramago (As pequenas memórias), Elias Canetti (A língua absolvida: história de uma juventude), Manoel Bandeira (Itinerário de Pasárgada), Jean-Paul Sartre (As palavras), Carlos Drummond de Andrade (A biblioteca verde). Na maior parte dessas memórias, verifica-se a influência da família no percurso de formação do leitor-escritor. É interessante observar como, apesar das semelhanças, esses percursos apresentam singularidades que se relacionam à formação da identidade de cada um dos autores investigados. Na obra analisada de Bandeira, por exemplo, Coenga verifica que o primeiro contato do autor com a poesia é essencialmente lúdica, por meio dos contos e cantigas de tradição oral, muitos dos quais se tornaram matéria para sua produção poética posterior,  como os versos de cantigas de roda: “Roseira, dá-me uma rosa”, “O anel que tu me destes”, “Bão, balalão, senhor capitão”, “Café com pão”. Já em seu trajeto de formação, Sartre destaca o papel central dos livros em sua descoberta do mundo: 'Nunca esgaravatei a terra nem farejei ninhos, não herborizei nem joguei pedra nos passarinhos. Mas os livros foram meus passarinhos e meus ninhos, meus animais domésticos, meu estábulo e meu campo'. O teatro e o cinema também marcam a trajetória do filósofo do existencialismo: 'Éramos da mesma idade mental: eu tinha sete anos e sabia ler, ela [a arte cinematógráfica], 12 anos e não sabia falar. Dizia-se que eu estava em seus primórdios que havia de progredir; eu pensava que cresceríamos juntos. Não esqueci nossa infância comum.' Por sua vez, Drummond expressa a relação aventurosa com os livros em sua infância:


Mas leio, leio. Em filosofias
Tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver. Como te devoro,verde pastagem. Ou antes carruagem
de fugir de mim e me trazer de volta
à casa a qualquer hora num fechar
de páginas?


Clique aqui para ler o artigo.


Referência:
COENGA, Rosemar. “Percursos de leitura nas memórias afetivas de leitores-escritores”. III Congresso Internacional de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil. Porto Alegre, 2012.


 

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COMENTÁRIO(S)
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SUSETE GUIMARAES DA SILVASUSETE GUIMARAES DA SILVA disse em 14/10/2016 07h51
É muito bom lembrarmos as memórias da nossa formação leitora.
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