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ACERVOPARA APROFUNDAR — ASPECTOS EMOCIONAIS DAS DIFICULDADES DE PRODUÇÃO DE TEXTO...

Aspectos emocionais das dificuldades de produção de texto

Este artigo, da pesquisadora Carolina Zuppo Abed, originou-se de uma pesquisa teórica e de campo sobre o ensino de produção de texto na Educação Básica, realizada para a monografia Contribuições da psicopedagogia e dos cursos de formação de escritores profissionais para a otimização do ensino de escrita criativa na Educação Básica (ABED, 2016). Trata-se de um recorte com foco na clínica psicopedagógica – diferente do texto original, que aborda práticas de sala de aula.


A pesquisa nasceu de uma preocupação com o desenvolvimento da escrita autoral como forma de empoderamento em um mundo marcadamente comunicacional (e cada vez mais escrito). Considerando que dominar a linguagem é também ter controle sobre o próprio pensamento e que ser capaz de elaborar um discurso próprio liberta os indivíduos da reprodução não refletida de pensamentos alheios, formar escritores é, também, formar indivíduos com autonomia de pensamento. Assim, contribuir para a aquisição da competência escritora é, mais do que ensinar a escrever, mediar o desenvolvimento de uma postura diante do mundo.


Segundo defende Carolina, a produção de textos autorais envolve dinâmicas internas acessadas e modificadas durante a escrita. Para que ele transcorra de forma adequada, deve-se desenvolver o controle da ansiedade e da impulsividade, visto que todo processo criativo demanda um tempo de maturação. Além disso, é necessário trabalhar o vínculo com o outro, haja vista que qualquer ato comunicacional envolve a vontade ou a necessidade de um interlocutor. É preciso, ainda, desenvolver a autoimagem do escritor, para que ele se perceba como autor autorizado, pois não é raro que a dificuldade em comunicar esteja associada à dificuldade de assumir o lugar daquele que tem algo a dizer e merece ser ouvido.


Além de libertar os indivíduos da mera reprodução não refletida de ideias alheias, elaborar um discurso próprio permite ao sujeito organizar suas demandas interiores ao possibilitar certo distanciamento de estados de espírito e consciência. Desenvolver habilidades escritoras é essencial em termos humanos, visto que a pluralidade de experiências e pontos de vista contemplados amplia os recursos internos do escritor, alargando sua capacidade emocional para lidar com as mais diversas formas de socialidade.


A pesquisadora alerta para alguns mitos que se colocam como obstáculos ao desenvolvimento da escrita autoral, como a velha crença de que escrever é um dom. Ao difundir esse mito, acabamos reforçando as ideias de que “quem escreve bem sempre escreverá bem e nada mais tem a aprender” e “quem não escreve bem não nasceu para isso, nada tem a aprender que possa mudar tal situação”. Assim, aderir a essa noção significa aceitar o fato de que não há possibilidade de desenvolvimento da competência escritora, o que contraria os princípios da educação e da psicopedagogia.


O artigo também traça a evolução histórica do ensino da escrita. Na década de 1910, ensinar a escrever era sinônimo de ensinar caligrafia. Ter uma boa letra era sinônimo de escrever bem, e o papel do educador se resumia a demonstrar e cobrar uma letra perfeita de seus alunos. Nos anos 1970, passou-se a estimular a prática da produção de textos por meio de exercícios de imaginação. Escrever bem passou a significar ter uma boa ideia ou uma “inspiração”, e o papel do educador era o de fornecer temas sobre os quais escrever. Só muito recentemente surgiu a preocupação de formar escritores autores. A partir da década de 1990 e principalmente no início do século XXI, nota-se uma crescente preocupação com o ensino de produção textual como um processo complexo, que envolve elementos enunciativos e discursivos.


Segundo a argumentação da autora, o ensino da escrita envolve conteúdos plenamente ensináveis e conteúdos problematicamente ensináveis, pois requer não apenas um saber o que, mas também – e principalmente – um saber como. É, pois, uma atividade que demanda o desenvolvimento de habilidades específicas somente adquiridas por meio da prática. A pesquisadora sublinha o papel do professor como mediador da aprendizagem da escrita, considerando que, além dos conhecimentos de ordem objetiva, esse processo envolve relacionamentos e considera as trocas emocionais que permeiam o ato de ensinar. O papel do mediador, nessa visão, é o de reunir as habilidades necessárias para construir pontes entre o conhecimento e o mediado.


Sobre a autora
Carolina Zuppo Abed é graduada em Letras pela Universidade de São Paulo e pós-graduada em Formação de Escritores e em Psicopedagogia Sistêmica. Atua como professora de redação da Escola Santa Marina e do Colégio Agostiniano São José e ministra oficinas de escrita criativa pela Secretaria Municipal de Cultura de Santos (SP). Contato: carolina.abed@gmail.com


Referência: ABED, Carolina Zuppo. Aspectos emocionais das dificuldades de produção de texto. Revista Construção psicopedagógica, v. 24, n. 25. São Paulo, 2016.  Leia outros artigos desta edição da revista.
 

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COMENTÁRIO(S)
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LILIANLILIAN disse em 28/11/2018 15h30
Interessante, visto que o escrever bem é posto não como um dom, mas como uma prática possível de ser ensinado e apreendido.
NÉVIANÉVIA disse em 11/09/2018 16h18
Interessante o artigo e riquíssimo em informações sobre o "escrever bem", porém em relação ao dom de escrever, mantenho uma afirmativa onde a atividade de escrita, seja qual for, deve ser harmônica para o escritor, pois se não houver harmonia entre ambos não há sentido em escrever.
NÉVIANÉVIA disse em 11/09/2018 16h11
Interessante e riquíssimo em informações sobre o "escrever bem", porém em relação ao dom de escrever, mantenho uma afirmativa onde a atividade de escrita, seja qual for, deve ser harmônica para o escritor, pois se não harmonia entre ambos não há sentido em escrever.
SORAIA CRISTINASORAIA CRISTINA disse em 05/10/2016 16h03
Gostei muito desse. Eu gosto muito de trabalhar produção textual. Me fez refletir muito.
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