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ACERVOPARA APROFUNDAR — DIVERSIDADE LINGUÍSTICA E MULTILINGUISMO EM DOCUMENTOS NORTEADORES DE POLÍTICAS PARA O ENS...

Diversidade linguística e multilinguismo em documentos norteadores de políticas para o ensino de línguas no Brasil

Os textos reguladores desenvolvidos sobre o ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras no Brasil contemplam as realidades multilíngues e a diversidade linguística? Provocado por essa pergunta, o estudo da pesquisadora Cibele Krause-Lemke traça um panorama a respeito de como essa temática é abordada em documentos norteadores de políticas para o ensino de línguas no Brasil − especificamente os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para o ensino de Línguas Estrangeiras Modernas do Paraná −, publicados entre 2000 e 2008.


A questão se ampara no suposto apagamento das realidades multilíngues presentes no Brasil, tendo em vista ter-se generalizado, no imaginário da nação, a ideia de que somos uma nação monolíngue. Segundo a autora, essa generalização é resultado das políticas de branqueamento e repressão linguística que imperaram no Brasil durante o governo de Getúlio Vargas (1930-1945). No entanto, o país sempre foi um território de convivência entre diversas línguas, muitas já extintas (entre elas, os idiomas indígenas), mas várias outras ainda existentes e praticadas aqui. Esse imaginário provoca dois apagamentos: a constituição heterogênea do Brasil e as vozes dos imigrantes.


As reflexões da autora se baseiam no livro A economia das trocas linguísticas, em que o sociólogo francês Pierre Bourdieu (2008) trata da produção e reprodução de uma língua legítima, e discute o que seria o poder simbólico da língua. Para esse autor, o fato de o sujeito dominar as normas da língua padrão lhe concede poder social, mesmo que seu discurso seja semanticamente vazio. Nesse sentido, nem todos os falantes são considerados como tendo um conhecimento legítimo da língua. A imposição de um conhecimento tido como legítimo seria um modo de calar as vozes daqueles que estão submetidos a uma dominação simbólica, pelo uso da língua, cujo cerne encobre questões socioeconômicas, culturais e políticas.


Assim, embora o Brasil seja formado por diversas etnias, idiomas e culturas, estas parecem estar apagadas nas políticas educacionais brasileiras. Um bom exemplo disso é a escolarização indígena: embora exista há quase cinco séculos, propostas educativas baseadas numa educação multicultural são recentes, as primeiras datando dos anos 1990.


Ao analisar os PCNs, a pesquisadora destaca pontos que, em seu olhar, escamoteiam o lugar das línguas estrangeiras e a possibilidade de inserir os idiomas das comunidades de imigrantes em sala de aula. Os pontos destacados são: o fato de esses idiomas aparecerem na parte diversificada, não no núcleo central do currículo escolar, e em caráter optativo; a restrição de que as escolas devem lecionar línguas estrangeiras modernas; a falta de políticas diferenciadas para a formação de professores que estimulem a integração de outras línguas no currículo das escolas.


Em relação aos PCNs do Ensino Fundamental (2000), a pesquisadora pondera que, embora manifeste a necessidade de valorizar a pluralidade sociocultural no contexto escolar, prevendo a possibilidade de incluir no currículo escolar o ensino de línguas que tenham validade no contexto social, há um forte apelo à criação de uma identidade nacional e de pertença ao país, ou seja, a política de valorização subjaz um ideal de apagamento da diversidade. Esses questionamentos são importantes para pensar a relação entre a língua oficial e as línguas indígenas, de imigração e outras (como a língua de sinais), alerta a autora.


Quanto aos PCN+ (2002), que complementam os Parâmetros para o Ensino Médio, a pesquisadora destaca que embora enunciem o trabalho com a língua estrangeira por meio dos traços singulares das culturas, na contextualização da disciplina predominam exemplos e argumentações referentes à língua inglesa. Desse modo, é notável a prevalência de duas hegemonias: o português – como língua materna – e o inglês – como língua estrangeira.


Sobre a autora:
Cibele Krause-Lemke é doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e professora do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro-PR), na linha de pesquisa Educação, Cultura e Diversidade. Lidera o grupo de pesquisa Língua, Imigração e Identidade. Desenvolve pesquisa na área de política linguística e atua nos seguintes temas: prática pedagógica, ensino em contextos multilíngues e formação de professores de línguas.


Referência
KRAUSE-LEMKE, Cibele. Diversidade linguística e multilinguismo em documentos norteadores de políticas para o ensino de línguas no Brasil. Revista Interfaces Científicas – Educação. Aracaju, v. 4, n. 2, p. 43-58, fev. 2016.

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