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ACERVOPARA APROFUNDAR — LEITURA NA PRISÃO FEMININA: DA BIBLIOTECA AO QUESTIONAMENTO DOS GOSTOS...

Leitura na prisão feminina: da biblioteca ao questionamento dos gostos

Este artigo, escrito pela professora portuguesa Paula Sequeiros, traz reflexões decorrentes de uma pesquisa desenvolvida com mulheres presidiárias que frequentam a biblioteca instalada no Estabelecimento Prisional Especial (EPE) de Santa Cruz do Bispo, próximo à cidade do Porto (Portugal). O objetivo era compreender as práticas de leitura que se desenvolvem em tais condições, quais as preferências das detidas e as razões dessas preferências. Além disso, buscou-se identificar os significados que essas mulheres atribuem à leitura, como os constroem individual e socialmente, bem como o papel que atribuem agora à leitura em sua vida cotidiana.


A análise levou em conta dimensões sociais, como classe, gênero, etnia, idade, ocupação e educação. A média de idade das detidas tem aumentado nos últimos anos, o que vem reduzindo ainda mais o letramento (ou literacia, em Portugal) dessa população de baixa escolaridade, segundo dados do setor educativo da instituição prisional. Esses dados confirmariam estudos que frisam a forte relação entre baixo letramento e idade avançada. Ao cruzar essa variável com outras, como classe social baixa, gênero e etnia, a expectativa era de um nível de letramento bastante inferior ao da média da população portuguesa.


Além da análise quantitativa, a pesquisa aborda aspectos qualitativos, como a questão do gosto literário, focando nos títulos e gêneros favoritos desse público leitor. Identificou-se que os itens mais requisitados eram romances da denominada “literatura light” (kitsch, ou “cor-de-rosa”), literatura de autoajuda e histórias trágicas de vida. A autora procurou questionar essa categorização recorrente tanto no senso comum como entre acadêmicos, buscando entender o que atrai essas leitoras. Para isso, desenvolveu uma análise crítica de um título de cada gênero, comparando passagens favoritas das pesquisadas.


A fim de investigar a relação entre leitura e sistema prisional, a pesquisadora apresenta um pouco da história da prisão moderna, especialmente em relação às mulheres. A origem dessa instituição remonta ao fim do século XVII, tendo sido moldada por normas patriarcais sobre a sexualidade feminina. Entre as detidas, estavam não só mulheres moralmente perigosas, a maioria prostitutas, mas também as que desafiavam a moral dominante, que podiam ser entregues por pais e pares masculinos, caso eles considerassem que a reputação familiar estava em jogo.


Recentemente a população feminina encarcerada cresceu muito em vários países, o que refletiria a moral de gênero no tratamento discriminante observado nos sistemas penal e prisional. Segundo a pesquisadora, o discurso jurídico submete essas mulheres a um estatuto duplamente desviante: como criminosas e como transgressoras das expectativas da sociedade em relação às mulheres. Isso pode se refletir em sentenças mais pesadas no caso de crimes com violência, os quais supostamente seriam contrários à sua condição feminina “natural”. De acordo com esse duplo estatuto, também a reabilitação moral das mulheres é voltada à formação em cuidados domésticos, com crianças e com a família.


Além do gênero, a autora aponta aspectos socioeconômicos relacionados ao desfalecimento do Estado social e sua substituição pelo Estado neoliberal, que adota postura de “regulação punitiva da pobreza”, associada à segregação racial e à marginalização espacial nos bairros pobres, a que estão sujeitas as camadas pobres das classes trabalhadoras. A leitura e as bibliotecas nesses ambientes foram inicialmente concebidas como instrumento terapêutico e de controle pelas autoridades prisionais, cujo discurso era construído sobre o objetivo da reabilitação. Posteriormente, esses programas foram fortemente questionados e as bibliotecas passaram a se fundamentar no direito a ler, contrariando as práticas que consideram leitura como instrumento de ensino ou aprimoramento pessoal.


Na parte "A construção do caso", Paula Sequeiros apresenta a metodologia e a forma como a pesquisa foi desenvolvida. O trabalho empírico decorreu de fevereiro a outubro de 2012. As práticas de leitura foram pesquisadas no seu contexto, por meio de: observação etnográfica; entrevistas semiestruturadas, em profundidade, com oito mulheres; conversas informais com presas, guardas prisionais, profissionais do serviço social e responsáveis pela gestão; uma sessão de grupo focal com seis leitoras; e relatos de vida escritos por detidas. A pesquisadora construiu uma amostra das detidas buscando refletir a diversidade revelada pela caracterização estatística quanto a classe social, idade, educação, etnia, ocupação e frequência de visitas à biblioteca prisional.


Ao tratar das obras lidas pelas participantes da pesquisa, o foco foi a chamada “literatura light”, tema ainda pouco investigado, sobretudo do ponto de vista da recepção leitora. Na análise a autora considerou os títulos preferidos por esse público e levou em conta a estrutura narrativa e as personagens, o estilo e os temas, e os posicionamentos ideológicos.


Sobre a autora 
Paula Sequeiros é mestre em Sociedade da Informação e do Conhecimento pela Universidade Aberta da Catalunha (Espanha) e doutora em Sociologia pela Universidade do Porto (Portugal). Faz pesquisas sobre bibliotecas públicas e novas tecnologias, bibliotecas públicas e leitura. No pós-doutorado, desenvolveu o projeto A biblioteca no tempo: bibliotecas dos paradigmas do impresso, do oral e do digital (2014).


Referência: 
SEQUEIROS, Paula. "Leitura na prisão feminina: da biblioteca ao questionamento dos gostos". Caderno CRH: revista quadrimestral de Ciências Sociais editada pelo Centro de Recursos Humanos da Universidade Federal da Bahia. Salvador: UFBA, v. 29, n. 76, p. 165-179, jan./abr. 2016. Para ler outras matérias desse caderno, acesse



Para aprofundar: Ler de novo ou ler o novo? Práticas de leitura de crianças na biblioteca


Coluna: Clecio Bunzen: Políticas públicas de leitura: uma cartografia inconclusa 


Entrevista: Gláucia Mollo: A biblioteca e seu papel na sociedade contemporânea 

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COMENTÁRIO(S)
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ELIETE PEREIRA DE VASCONCELOSELIETE PEREIRA DE VASCONCELOS disse em 07/08/2016 21h48
Essa iniciativa de leitura no presídio é muito importante,a prática da leitura amplia um novo horizonte.Parabéns pelo artigo!
FLORÊNCIAFLORÊNCIA disse em 06/08/2016 23h21
O incentivo ao conhecimento, à leitura, deve ocorrer em todos os ambientes. Parabéns pela pesquisa!
VALMIRVALMIR disse em 06/08/2016 09h43
ótima iniciativa, que todos os presídios brasileiros deviam adotar. ocupar a mente com coisas que constroem... Parabéns por este lindo projeto !!!
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