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EM REVISTAENTREVISTAS — RODRIGO BUENO: A INFLUÊNCIA DOS QUADRINHOS NA FORMAÇÃO DE UM ILUSTRADOR...

Rodrigo Bueno: A influência dos quadrinhos na formação de um ilustrador


O quadrinista paulistano Rodrigo Bueno, coordenador de arte-educação no Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), fala sobre a sua grande paixão: histórias em quadrinhos (HQs). Nesta entrevista, ele conta como conheceu a arte dos quadrinhos e como ela o impulsionou a desenvolver-se na arte da ilustração. O resultado foi uma grande aula!


 


Plataforma do Letramento: Rodrigo, ler HQ, em suas várias abordagens, é sempre um prazer. Conte para nós por que e como você se envolveu com a arte dos quadrinhos.
RB: Acho que tive uma porção de motivações. Mas a principal razão da minha afinidade com os quadrinhos foi minha dificuldade em me comunicar verbalmente. Era assim: eu sabia o que queria dizer, mas não conseguia, ficava engasgado, travado nas palavras, na língua, na dicção. Na cabeça a ideia já estava formada e eu sempre ficava aflito em dizer tudo de uma vez. Acho que faltava uma organização interna para expressar claramente as palavras e frases. Quando aprendi que era possível juntar palavra com imagem, da esquerda pra direita, uma complementando a outra, e que eu podia manipular e controlar a ordem disso, senti um grande barato na minha cabeça e uma espécie de alívio também. O papel era paciente comigo, me esperava o tempo que eu precisasse. E depois, quando eu terminava, os adultos sempre me davam atenção e estímulo. Tive muita sorte nesse sentido. Isso tudo entre os 5 e 10 anos, aproximadamente.


PL: Certamente você tinha HQs preferidas quando criança. Quais eram elas, que tipo de histórias traziam?
RB: Não lia muito quadrinho na infância. Gostava de fazer minhas próprias histórias, não tinha interesse nem paciência para ler quadrinhos. Até a Turma da Mônica era meio difícil pra mim. Fui aprender a ler HQ mais tarde, lá pelos 15 anos. Nessa idade eu li tudo com voracidade, qualquer coisa que caía na mão. Fuçava em sebos, descobria coisas antigas como Fantasma, e uns quadrinhos de cowboy. Os autores brasileiros, Geraldão, Chiclete com Banana, Piratas do Tietê. Passei a me divertir em ler de trás pra frente ou de começar a história pelo meio, terminar e voltar para o começo. Nessa fase eu li inclusive Turma da Mônica, o que há de mais convencional no Brasil.


PL: Você tinha autores favoritos?
RB: Na infância eu não tinha menor ideia do que era um autor. Pra mim era difícil entender isso. Ziraldo, Maurício de Souza pra mim eram nomes que não correspondiam a pessoas da vida real. Achava que era uma espécie de marca, tipo Nestlé, que fazia o Nescau. Mas uma vez, aos 11 anos conheci pessoalmente a Ciça Fittipaldi, uma escritora de livros infantis que também desenhava. Uma das experiências mais arrebatadoras que tive. Foi em uma feira do livro. Ela me contou dos personagens que inventava, uma história de uma onça banguela que perdeu os dentes tentando morder um tatu que tinha a casaca muito dura. À medida que ela falava sobre eles, o desenho ia surgindo. Acompanhei os traços do desenho, foi uma experiência real e era um adulto fazendo aquilo. Eu achei aquilo muito incrível.


PL: A diversidade de traços dos quadrinistas, própria dos artistas plásticos, contribuiu para que você enveredasse por esse caminho? Por quê?
RB: Com certeza. A diversidade de traços é um convite à criatividade. Mostra que, apesar das convenções, sempre é possível criar algo diferente, com identidade. Quando comecei a me interessar pelo desenho não tinha habilidade de copiar, simplesmente não conseguia. A mão e a cabeça não iam. Era mais fácil fazer diferente, do meu jeito.


PL: Conhecendo alguns de seus desenhos, sei que eles expressam seu jeito de ser. Quando você começou a desenhar? Fez algum curso para isso ou desenhar é um talento natural?
RB: Talento natural é um conceito complicado. Talento pode ser habilidade? É vocação? É ser autodidata? Em relação aos quadrinhos, ao desenho, à literatura e às artes, sinto (desde criança) uma convicção íntima, uma intuição, um interesse por esses assuntos e um desejo de aprofundar. Não sei se isso pode ser chamado de talento. Será? Frequentei um ateliê de pintura infantil dos 6 aos 12 anos em um centro de cultura japonesa. O professor de pintura era um velhinho japonês que a gente chamava de “sensei” (mestre em japonês). Ele mal falava português. O sensei (cujo nome era Takeo Sawada) não ensinava nenhum tipo de técnica específica ou convenção de pintura ou desenho. Só acompanhava e dava atenção aos trabalhos. Apesar da restrição da língua, ele se comunicava de um modo muito eficiente. Era muito claro quando ele dizia “vontade você!” sempre no começo de uma pintura. Queria dizer “o tema é livre, desenhe o que você quiser, o que tiver vontade”. Uma vez resolvi pintar uma grande área do desenho de bege, ele olhou e disse: “pintor parede!” Na hora eu entendi que ele gostaria de ver mais cores, mais elementos. E, quando a pintura terminava, com as cores e as formas bonitas, ele olhava com atenção e soltava um sonoro “ótimo!”. Essa vivência foi fundamental para as coisas que vieram depois: vários cursos, livres, oficinas e um curso universitário em Desenho Industrial e pós-graduação em História da Arte e Cultura Contemporânea.  


PL: Ao desenhar quadrinhos, você tem que colocar em um espaço pequeno uma série de elementos que precisam complementar e até, de certa forma, substituir a linguagem escrita. Como você faz isso?
RB: Eu ainda estou aprendendo a fazer isso, a compor bem, a fazer escolhas interessantes. Acho que o caminho é conhecer bem as convenções, ter consciência dos efeitos que elas provocam nas pessoas e, no meio disso, ouvir o coração e não ter medo de errar. Uma vez eu li num manual de roteiro para cinema que todo diretor tenta criar uma boa cena. É difícil acertar. Mas se ele acerta, o filme é inesquecível. Mas, se o filme tiver uma cena ruim, o filme inteiro já era. Não há cena boa que salve. É cruel, é como desafinar. Tento sempre me lembrar disso.


PL: HQs geralmente são associadas à leitura infantil. Sabemos que elas não se limitam a esse público. Mas quando as HQs começaram, foram dirigidas ao público adulto ou infantil? O que você pode nos dizer sobre isso?
RB: As HQs surgiram com a indústria de comunicação em massa, com os primeiros jornais e revistas. Nada disso era desenvolvido para criança, muito pelo contrário. A ideia de associar quadrinhos com leitura infantil é recente. A ditadura militar coagiu uma geração de autores “subversivos” ou “imorais” e favoreceu o crescimento de um mercado mais inofensivo, infantilizado. Tem algumas publicações que contam bem essa história. Recomendo o livro A Guerra dos Gibis, do Gonçalo Junior. Hoje existe um movimento muito interessante: os quadrinhos estão ocupando espaço nas livrarias. Há um crescente mercado que consome livros de quadrinhos elaborados em um ritmo menos intenso que aquele que abastece as bancas de jornais. A elaboração de um livro de quadrinhos costuma se aproximar de uma obra literária mais profunda e amadurecida.   


PL: Ler quadrinhos é fácil ou difícil? Por quê?
RB: Quadrinhos exigem uma alfabetização específica. Saber ler as imagens, os códigos visuais e a interação deles com o texto é algo que se aprende e isso exige certo esforço. Daí, a dificuldade varia conforme a complexidade e sofisticação desses elementos na história.


PL: Atualmente, o gênero HQ é menos estigmatizado do que há algumas décadas e até faz parte de currículos de ensino de língua. Se você fosse professor de crianças que desejassem aprender a ser quadrinistas, o que ensinaria para eles?
RB: Acho que, pra começar, descobrir o que as crianças desejam, do que gostam pra valer, quais são as fantasias prediletas, onde gostariam de ir e o que acham importante dizer. Em cima disso, a alfabetização da língua dos quadrinhos, os elementos simbólicos que caracterizam uma fala, um pensamento, um estrondo... E antes de começar, saber para quem é a história. Escolher alguém especial que valha a pena o trabalho.  


Clique no Blog do Rodrigo Bueno para conhecer o trabalho do artista.


Conheça o Peixe Peludo - personagem criado por Rodrigo em parceria com o quadrinista  Rafael Moralez - e acompanhe sua trajetória
pelo mundo.

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